Vem comigo até Pequim?

跟我来北京吗?

(Gēn wǒ lái běijīng ma?)

O que eu aprendi viajando por trinta países


Seumário

Não, não vou fazer nenhuma perguntinha famosa sobre armários e coisas do tipo. O objetivo aqui é trazer reflexões. E que comecemos pela primeira: Quem foi que disse que o sumário não pode aparecer no próprio sumário?[1]

Seumário        1

I - O porquê de eu não reclamar da vida        5

O holandês voador        5

Aos marinheiros de primeira viagem        11

Deus (me) salve (d)a rainha        13

Veja as lições que trouxe de Londres        17

II - Fui rico por uma semana. Sou feliz até hoje.        20

Einstein estava certo. Ser rico é relativo.        20

Quantos bolivianos ganha um boliviano?        21

Enriquec. lícito #1: Ma oe, quem quer dinheiro?        22

Enriquec. lícito #2: A miraculosa multiplicação das granas        26

Enriquec. lícito #3: A famigerada adaptação hedônica        31

Veja as lições que trouxe da Bolívia        32

III - O nome dela é Jéssica        34

Como a coisa começou        35

Era um dia quase normal do Marrocos        37

Vambora, Jessicá!        39

No meio da cidade, havia uma praça        40

Vocês tem o direito de NÃO permanecerem caladas        41

Seriam as maquiagens maquiavélicas?        43

Bééé... Cabeças vão rolar!        45

Beijinho, beijinho, tchau, tchau        47

Veja as lições que trouxe do Marrocos        49

IV - O país onde eu nasci de novo. De novo.        53

O que é que Nova Délhi tem?        56

O motoqueiro fantasma e o mistério do cartomante        58

A cidade onde tem presunto no almoço        65

O novo Padre Tereso de Calcutá        74

Veja as lições que trouxe da Índia        78

V - Os Do’s, Don'ts & Donuts de uma viagem        82

O leão na savana        83

O nomadismo digital como saída        86

Fronteiras elásticas        89

V de Veneza        99

VI - Quem tem olho grande não entra na China… (1ª parte)        109

Dando nome aos bois que foram pro brejo        111

Quando fugir é trocar de inimigo        114

Menos amor, por favor        117

Com toda licença poética        119

Embarque imediato para Pequim        123

VII - ...Mas vai muito mais longe (Continuação)        126

Quatro é demais        127

A Coréia cotidiana        130

Veja as lições que trouxe do alvo        137

Conclusão: Precisamos de um planeta maior        139

Apêndice        141

Receitas do país X        141

Citações musicais e fotográficas        148

Dinheiros, moedas e seus valores médios        149

Deus ex machina        151




“Planos de viagem bizarros são aulas de dança de Deus.”

Tradução adaptada do trecho abaixo de ‘Cama de Gato’, por Kurt Vonnegut Jr.




“Peculiar travel suggestions are dancing lessons from God."

Kurt Vonnegut Jr., in ‘Cat's Cradle’


I - O porquê de eu não reclamar da vida

São João de Meriti, RJ, 17.344 km ✈ até Pequim

Antes de chegar em Londres, eu havia desembarcado do meu avião azul em Amsterdam. Sem contar Foz do Iguaçu e suas cidades-irmãs nos países vizinhos e talvez o Rio Grande do Sul, era a primeira vez que deixava o Brasil. A viagem, ou melhor, a primeira das viagens, iniciou por lá de fato, e de uma maneira pouco comum. Na verdade, as viagens começam muito antes de a gente afivelar os cintos e preparar para a decolagem, ou sair de nossas casas. Primeiro, quem viaja mesmo são nossas cabeças.

O holandês voador

Nos confins da paisagens suburbanas do Rio de Janeiro, existe um lugar que é muito diferente daquela cidade turística que você vê na televisão, e também das favelas. É claro que de vez em quando aparece na TV, é também é claríssimo que é no noticiário criminal ou sensacionalista. Foi bem lá que eu fui nascer, em Belford Roxo, a cidade do amor — alcunha ironicamente dada para tentar levantar a moral de um dos lugares mais violentos de sua época — e minha família morava na vizinha São João da Meretriz de Meriti. É uma cidade quase ninguém conhece, mas você já passou por ela se já fez a rota Rio - São Paulo. Talvez você tenha ouvido falar em Vilar dos Teles, a decadente ex-capital do jeans, fica lá. É possível também que tenha ouvido falar da pequena Nilópolis de outros carnavais, a terra da G.R.E.S. Beija-Flor, onde segundo algumas fontes televisivas globais, você não iria querer estar por lá se todos os moradores resolvessem dar descarga ao mesmo tempo. Fica ao lado, e muitas das vezes era melhor ir para lá do que ficar em São João. A cidade meritiense é tão conturbada conurbada (colada) com a capital fluminense, que você nem percebe que chegou, se não for pelas placas, caso você passe por uma que não tenha sido vandalizada, ainda. Apesar dos pesares, tem uma das maiores densidades demográficas do continente, e junto com a irmã Belford, forma umas das maiores cidades-dormitório que conheci. Isso significa que, quem trabalha, provavelmente trabalha na capital, e durante o dia, e também significa que quem não trabalha possivelmente passa seus dias a vagabundear pelas ruas; E lá tem educação de sobra, e de qualidade.

Aquilo é uma universidade pública de criminologia a céu aberto. Mestrado em tráfico de drogas? Lá tem. Quer ser PhD em crime desorganizado? Ou que tal um curso de especialização em direção perigosa e formação de pilotos de fuga? Lá é o lugar. Você provavelmente vai iniciar sua carreira como ‘Auxiliar de Assaltante I’, mas logo, logo, pode chegar a ‘Encarregado de Boca de Fumo Sênior’, se sobreviver. Oportunidade é o que não falta.

“No Amazonas / no Araguaia-ia-ia / Na Baixada Fluminense / […] / Na morte eu descanso / Mas o sangue anda solto / Manchando os papéis / Documentos fiéis”
♫ URBANA, Legião

Em meio a esse universo onde os jornais são feitos de sangue e a galinha cisca para trás, a minha infância foi basicamente comer, dormir, ir para a escola, comer, dormir, brincar — desde que dentro de casa — comer, fazer o DV (dever’ de casa), assistir TV, comer, e coisas do tipo, além de comer. E assim, esse crianço nerd, gordinho e desengonçado chegou a oitava série, e conheceu algo que hoje tem nome chique e tudo, mas na época nem se sonhava com essa problemática: O Bullying. Nessa época, tinha é café no bule, segundo o Ratinho.

Desde os primórdios da humanidade, a zueira nunca teve limites. Para minha geração, os apelidos era uma das formas mais comuns dela se manifestar. E eu levei isso a sério. Ao mesmo tempo que tinha tantos apelidos que era impraticável — e as pessoas acabavam me chamando mesmo de Lucas por uma questão de comunicação — eu fiz quase uma lista de chamada paralela. Mas lá, todo mundo era vilão e vítima ao mesmo tempo, não havia inocentes e nem inocentados. Nem mesmo os professores escapavam de bulinar e serem bulinados. Que fique claro que eu não inventei o jogo, só joguei. Essa vivência, no final, acabou me gerando um desejo indissolúvel de ser diferente, de dar a minha vida um destino distinto do que ela estava fadada a se tornar. A minha sala da oitava série era mais ou menos assim:

DPS - Diagrama de Panelinhas Sociais: Oitava série.

Dos colegas, eu tretava bastante com o Fernandinho, nós éramos os nerds da turma, mas o pai dele tinha dinheiro, e ele tinha Playstation, e isso representava poder; Enquanto na minha casa, jogar era proibido e mal teve videocassete. Fora que a dele era bacana, e a minha ainda tinha algumas paredes no tijolo. Logo, ele era muito mais popular do que eu, e não havia espaço para dois nerds em uma mesma sala, embora a gente mantivesse relações diplomáticas, às vezes por necessidade. O Fernandinho acabou se tornando designer. Esse ‘inho’, é porque ele era baixinho, e só isso era suficiente para gozação eterna e infinita. Na panelinha dele, tinha o Mini Murilo (mesmo motivo), o Hector Xuxa (por ser o único lourinho da sala), entre outros, mas só sei que o Alexandre Puppet virou militar. Na turma da bagunça, a Samara virou mãe, o Armando Solidariedade Soledade virou pai, e a Fabiana Alcatra Alcântara sumiu. No quartel das feias, a General Joana <vários-sobrenomes> Pinto foi fazer letras na Federal; Ela tinha uma carreira de sobrenomes digna de imperador, mas estranhamente os pré-adolecentes do colégio preferiam a chamar por este último. Não tive mais notícias da Jocely Cabelo-de-Vassoura (elaborado apelido sazonal, ás vezes mudava para Cabelo-de-Árvore-de-Natal) e nem da Karine Dragonetti, suas fiéis escudeiras de caserna. Não queria ter a mesma vida que a gAbRiElLa Gabriella Gasparzinho (por ser branca), da panela gótica. Tive uma colega — essa aí eu nem me arrisco a inventar um nome alternativo, vai que ela aparece — que passou por uma possessão demoníaca no final de uma das aulas, e tempos depois saiu da escola. O João Baleia, que morava na ‘Rua da Gordura’ (De verdade, o nome da rua era quase esse), foi pros States, e a Rayane Formiga (ela gostava do apelido, e, portanto, não era zoada), ao meu ver, e, de acordo com o meu radar, foram únicos que se destacaram, até agora. Observe que eu uso o termo ‘colegas’, e não ‘amigos’, demonstrando o quanto esse ambiente carente de paz de espírito foi prejudicial para meu desenvolvimento. Vindo dali, eu realmente queria fazer algo diferente e inovador. Só não sabia o quê.

Na faculdade, eu tive uma trégua, e, de maneira inédita, consegui um grupinho muito bom: O grupo dos sem-vida. Mesmo eu sendo o ‘maluco-beleza’ (♫), a gente realmente estudava e se dava bem. Mas na primeira disciplina do mestrado, o estigma de não se encaixar em nada continuou me perseguindo. Só houveram involuções, e estava na cara que a minha vida não ia variar muito disso, como você pode ver nesse novo diagrama de panelinhas:

DPS - Diagrama de Panelinhas Sociais: Já no mestrado, e nada mudou.

Bem, eu comecei a trabalhar, e nessa empresa eu consegui até mesmo um endereço de e-mail corporativo muito original: ‘bigode@nomedaempresa.com’. Tive colegas de trabalho que até hoje, nunca souberam meu nome de verdade. E, eis que no meio de mais um dia de labuta, aparece na internet uma oferta mirabolante/bug de sistema, de passagens para Amsterdam por apenas US$ 100, ida e volta, na cia KLM, cheia de garbo e elegância. Incrivelmente barato! O escritório foi tomado pelo frenesi, e aquela onda me alcançou. Todos estavam combinando de tirar férias e zoar muito nos Países Baixos na Holanda. Todos menos... eu, claro. Não fui convidado. Porém o site estava muito congestionado e ninguém estava conseguindo comprar. Até que, eu, por pura zoação, resolvi colocar o número do meu cartão de crédito e… suspiros… FUNCIONOU!!!!!

Vou para Amsterdam! E a Londres, e a Berlim. Sozinho. A minha história estava começando a mudar. É zoeira, você never ends. ;-)

Aos marinheiros de primeira viagem

Esses escritos foram dedicados a vocês. As primeiras viagens que fiz foram individuais, e as últimas foram em sequência, depois de quando realmente percebi que estava descartando meu tempo em uma lixeira grande e gulosa: emprego. Antes de chegar na China, que era meu objetivo, eu passei por muitos lugares. O dinheiro nunca foi muito abundante, e não, não houve uma meta de número de países visitados, não penso dessa forma. Passei por cerca de 30 até agora, muitos passaram por 40, 50, 60… Aos que me perguntarem, posso dizer que resolvi fazer como a ex-presidenta Dilma, deixando a meta em aberto: Quando eu atingir a meta, eu dobro a meta.

Já deixo as primeiras dicas aqui: Você vai conseguir chegar onde seu bolso te levar. E não fique viajando e voltando para seu lugar de origem, tire um tempo e viaje de uma vez, visitando os lugares que quer em sequência. O dinheiro que você gasta com uma passagem de retorno, geralmente já serviria para pagar uma continuação da sua viagem e ainda sobra muito, pois você já está mais perto do seu próximo destino, o que gera uma economia em cascata. Eu comecei a viajar granularmente, como um comprador varejista, aproveitando períodos de férias e feriados prolongados (épocas de alta temporada, sempre mais caro, lotado e pior). Depois, eu me dei conta que meu emprego estava me atrapalhando, e, na verdade, era eu que estava lhe sustentando, e não ao contrário, então eu o larguei. Comecei a ganhar menos, mas também a economizar muito: Por exemplo, o dinheiro do aluguel do apartamento chique no Recreio dos Traficantes Bandeirantes, virou o dinheiro da hospedagem. Agora iria viajar como atacadista, ficando muito mais em conta (o que acabou fazendo com que eu contasse aqui as histórias fora de ordem). A saber, também fiquei mais tempo nos lugares onde viver é mais barato, e pouco ou nenhum tempo onde o custo de vida é alto. Por isso, veremos mais América, África e Ásia do que Europa. É claro que, por não ter mais residência fixa não faltaram percalços (por exemplo, não ter comprovante de residência te deixa na condição social de um morador de rua, perante os bancos) e recebi diversas críticas de muitos. Não podia viajar sozinho antes dos 18. Fazer um curso de inglês intensivo e trabalhar 40 horas por semana foi complicado. Houve uma ocasião em que me perguntaram: “Onde você mora hoje, Lucas?”. Era rotulado como cigano, andarilho, e outros nomes, sempre em tom pejorativo. Foram tempos difíceis, e faço questão de não esconder as dificuldades de ninguém, pois elas geram aprendizados. Hoje tenho certeza que os que me criticaram passariam a me admirar, se tivessem notícias minhas.

Estou escrevendo para satisfazer a curiosidade e incentivar aqueles que não tem coragem e não conseguem se planejar, mas sobretudo, para transmitir de graça o que custei a aprender, para que as minhas mancadas sejam os acertos de outras pessoas, e os meus acertos mais ainda. Gostaria de prosseguir, deixando três palavras especiais para que vocês jamais se esqueçam delas: NÃO TENHA MEDO[2].

Deus (me) salve (d)a rainha

Londres, Reino Unido, 8.150 km ✈ até Pequim

Sabe Deus?! Nunca te pedi nada… Até parece. Era Londres, com todas as libras esterlinas conspirando contra mim, e aquele vento frio de congelar pinguim. Era o amanhecer de um ‘belo domingo’ (sempre quis escrever isso, confesso...), mas meu objetivo era chegar na Alemanha o quanto antes, ainda pela manhã. Minha conta bancária não sobreviveria a muitas horas ali. Saí cedo, desisti de esperar por um ônibus urbano — daqueles vermelhos de dois andares — que não veio e fui direto ao famoso metrô, o underground, “O” cara, que pra minha surpresa ainda estava fechado porque era domingo e eu teria que esperar. Então, esperei. Esperei. Esperei de novo. Peguei o primeiro metrô do dia, que me deixaria em uma outra estação próxima, onde seria possível pegar um trem para o aeroporto.

E não é que com toda a pontualidade londrina o bendito trem atrasou? E ainda mais de meia hora. Ainda sim conseguiria pegar o avião, se não tivesse que despachar bagagem, que não consegui por cerca de dois minutos. O relógio, meu principal inimigo, me derrotou.

Bem, fazer o quê? Remarcar o bilhete ia me custar o rim esquerdo. Ir de ônibus ia ser bem mais barato, mas a Alemanha não fica tão pertinho assim da ilha grã-bretã e a viagem ia levar cerca de 24 horas, empacotado e fora do meu objetivo de chegar lá no mesmo dia.

Não sei de onde surgiu a ideia de ir para a Alemanha de trem-bala, mas surgiu. Não custou meu rim esquerdo, mas digamos, a supra-renal. Comprei o ticket online no site do Eurostar — aquele que passa por baixo do Canal da Mancha — e fui rumo a estação de trens internacionais King Cross/St. Pancras. Detalhe que peguei o mesmo serviço de trens que conecta o metrô ao aeroporto voltando e dessa vez ele foi super pontual. Parece que ele só queria me atrasar mesmo. E conseguiu.

Resumindo um pouco a sequência de desgraças simultâneas, ao chegar na estação St. Pancras aconteceu um problema misterioso com a impressão do meu ticket do Eurostar que nenhum funcionário sabia explicar, e um deles me passou, sem ticket mesmo, pelo portãozinho e me deu um papel timbrado e carimbado com algumas palavras escritas à mão e alguns códigos, sem muito sentido para mim, como “L Martins dos – 2013 – London – Brussels – 9140” para entregar a alguém na próxima estação.

Embarquei, sem um vil metal no bolso, ainda sim o Raio X encrencou comigo. Fiquei lá, fui revistado até a alma e peguei o trem já esperando pra ver qual o próximo perrengue que eu ia passar, apesar de não estar lamentando a situação. E não demorou muito: Desembarquei em uma estação meio importantona, em que ia fazer uma baldeação um transbordo. Baldeação pra mim é quando estamos lidando com baldes em uma goteira. Eu gosto de chamar de transbordo, e eu estava mesmo transbordando de uma sensação que não sei explicar muito bem. Devido ao fato de esse trecho ser operado por outra empresa — Thalys, aquele trem vermelho bonitão da capa — diferente da primeira, eles não quiseram aceitar meu bilhetinho, como quem faz cara de “Eu não tenho nada a ver com isso”.

Não sabia nem em qual país eu estava. Não sabia nada, nem qual era a língua local. Só mais tarde fui descobrir que era a Bélgica, e a cidade, Bruxelas. Reclamei, fui no balcão, falei com o Fulano, com o Beltrano, mostrei o e-mail do ticket, discuti em inglês, gritei em inglês, esperneei em inglês — ops, nem tanto — e no final o carinha do trem me deixou embarcar, não sei se por pena ou por cansaço. Essa excelente geração belga...

        

Eu e meus velhos companheiros de viagem: sono, leituras, podcasts e assentos vazios. Essa foto foi tirada em visita a fronteira do Canadá com os EUA, mas não tem a ver com o destino, e sim com autoconhecimento. “Such a lonely day, and it's mine…” (♫)

Mas já era tarde, e só ia conseguir chegar na Alemanha no mesmo dia por um milagre metafísico. Então deixei de me preocupar. E as coisas pararam de dar errado. Éramos só eu e meu sorriso no rosto, ninguém mais. Cheguei com um dia de atraso, mas feliz e com sucesso!

Quando chego no hostel em que ia ficar vejo uma garota asiática (Sul-coreana, acho) visivelmente triste e bastante chorosa. Ela estava hospedada no mesmo quarto que eu, que pouco tempo depois descobri que ele havia sido roubado na noite anterior. Ela não era precavida, assim como eu na época, e levaram dela dinheiro e passaporte. Fizeram a limpa, e segundo uma investigação informal (CSI Berlin) havia sido um colega de quarto que tinha ido embora antes que eu conseguisse chegar. É, há males que vêm para bem, e há malas que vão para Belém.

E esse é um dos porquês de, apesar de eu ser crítico e reclamar com uma certa frequência das coisas erradas que vejo — frequência essa que quem me conhece, bem sabe — não reclamo e não lamento as coisas que estão fora do meu controle. Não adianta. É assim que é, e é assim que há de ser.

Veja as lições que trouxe de Londres


II - Fui rico por uma semana. Sou feliz até hoje.

Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, 17.578 km ✈ até Pequim

Legal, mas primeiro deixa eu te contar como foi que eu fiquei “rico”. E estamos falando de dinheiro, money, bufunfa, não me venha com a conversa que é rico de saúde. Falei espanhol, mas não foi como em 'Narcos' ou 'La Casa de Papel'. Juntei algumas moedas, mas nem se compara a caixa forte do Tio Patinhas. Não querendo fazer suspense, como no tempo dos programas do João Kleber, mas já fazendo, deixa eu te explicar a raiz de toda essa riqueza. Para tudo! Depois dos comerciais. Também vamos tentar avaliar o quanto isso foi honesto.

Einstein estava certo. Ser rico é relativo.

Na verdade, o quão você é rico depende única e exclusivamente de o quão pobre são as pessoas que estão ao seu redor. Então, a primeira coisa que eu fiz foi me transportar para uma realidade de forma a se misturar com os mais pobres do que eu. Não que eu tivesse intenção ou consciência alguma do que estava fazendo, e, ao mesmo tempo queria investir o mínimo possível para isso acontecer. Ir para África, então? Eu já havia ido lá, em dois países, encontrei gente muito mais rica e tão negra quanto eu. Mas e aquela pequena Africazinha bem alí do nosso lado (não se avexe, meu nobre, estou comparando grosseiramente com base em indicadores econômicos), em que as pessoas lêem meia dúzia de páginas de um noticiário e acham que já conhecem tudo? Estamos falando da nossa vizinha Bolívia, e seus queridos bolivianos, o povo que ironicamente tem nome de dinheiro e vice-versa.

A Bolívia tem diversas belezas naturais e imateriais. Mas a maior parte do caminho que fiz de Cochabamba até La Paz era assim. Foi imerso a este cenário que tomei meu café da manhã: Canja de Galinha, ou apenas canja mesmo, já que tudo por lá parece ter gosto de frango.

Quantos bolivianos ganha um boliviano?

Deixa eu lhe contar como iniciei minha aventura: Depois de voar do meu azulado Rio de Janeiro (ou talvez avermelhado. Cor de sangue) com conexão na acinzentada São Paulo, cheguei na moreníssima Campo Grande (cujo nome e apelido não poderiam ser mais justos), passei por Bonito (já este um nome particularmente modesto), até que chegou a hora: Peguei o ônibus.

Um ônibus com tarifa absurdamente cara, horários esparsos e antilogísticos, assentos sobrando, com a atitude de parar para almoço em um restaurante descaradamente inflacionado, do qual eu fui salvo por levar minha própria comida, e coisas do tipo. De que país estamos falando? Claro, Brazil!

Depois que atravessei para o lado boliviano, através da fronteira de Corumbá, a cidade branca, também capital internacional do império dos mosquitos pernilongos, e distrito sede da maior quantidade de garrafas de repelente per capita que já visitei, a realidade mudou, e bem mudada. Fiz um trajeto de trem de quase 700 km, bastante confortável por sinal, que custou pouco mais de 70 bolivianos, ou 35 reais. Trinta e cinco surreais.

Boliviano é o nome da atual moeda (Alguns ainda falam pesos. “pêssos”), e também o nome da gente que sustenta aquele país. Foi assim que fiquei rico. Me camuflando entre os ainda mais pobres. E olha que, enquanto escrevo, o salário mínimo deles é maior do que o nosso. Isso soa inacreditável, até a gente lembrar que a nossa merreca mínima é virtual, ou seja, não dá pra viver apenas com ela.

Enriquec. lícito #1: Ma oe, quem quer dinheiro?

A primeira impressão que tive é que tudo na Bolívia custa muito barato, e se confirmou até o último segundo lá, embora a qualidade dos serviços prestados seja igualmente baixa, de modo geral. Um almoço simples, que vale por dois, custou R$ 6. Digo que vale por dois pois sempre vinham dois pratos, e apenas um deles já me alimentava. El segundo, muito frequentemente um pollo (frango, sempre tem presença confirmada na cozinha boliviana), e el primero, geralmente uma sopa. Um taxista chegou a me cobrar R$ 3 por uma corrida, ainda que curta. O transporte público local não é onipresente, mas quando o encontrei não custou mais de R$ 2, inclusive o modernoso ‘Mi Teleférico de La Paz’, viajando nas alturas. E por falar em alturas, um vôo interno comprado com três dias de antecedência, de Potosí a Santa Cruz pela BoA (Boliviana de Aviación) saiu por aprox. 226 reais, já com todas as taxas e bagagem. Se fosse no Bra$il teria deixado um salário inteiro para entrar naquele avião assim, às pressas. Como não se sentir rico, pois embora a minha quantidade de dinheiro era exatamente a mesma, eu poderia consumir, muito, muito mais com aquela grana?

“ “Praia de Copacabana” ” (muitas aspas) vista do meu hotel de frente pro lago Titicaca. Você já sabe, mas não custa lembrar que, no critério praia, nós é que somos privilegiados, está bem? Herdamos o nome, inclusive. E as praias artificiais do nosso grande lago internacional, o de Itaipu, também tem esse nível. Mas que eu me senti trilionário, isso foi.

Até mesmo nos ônibus rodoviários, daqueles que viajam a noite, paguei incrivelmente barato. Uma viagem de cerca de 16 horas, semileito, ar condicionado, calefação, Cordilheira dos Andes arriba, saiu por volta de R$ 100. Aproveitei para usar o meu 3G da Tigo, que era a tecnologia mais moderna que meu celular suportava, mas que funcionava melhor que as melhores redes wi-fi, com um chip que comprei por um valor igualmente baixo, que até esqueci quanto foi. Também fiz a melhor excursão da minha vida até agora, uma inesquecível viagem de dois dias pelo Salar de Uyuni de jipe 4x4, que nem a outra excursão que viria a fazer pelo deserto do Saara conseguiu superar, custando quase o mesmo preço de passar dois dias em São Paulo. Isso logo após te ter me hospedado em um hotel de frente a praia de Copacabana (a deles, que é bem diferente da nossa, por sinal), já próxima ao Peru, pagando R$ 40 a diária, com direito a café da manhã incluindo chá da folha de uma famosa e inocente plantinha.


Eu perfurei minha mão com o susto após a câmera disparar esta foto, neste cacto em que meu guia afirmou que cresce cerca de um centímetro por ano, e é desproporcionalmente maior e mais antigo do que eu. Desculpem, mas para ter valido a pena eu tinha que colocar ela aqui.

Mas ao cortar o cabelo, não eu, claro, mas um jovem mancebo que me cobrou apenas R$ 7.50 para cortar o meu à tesoura, enquanto tentava arranhar as poucas palavras que sabia de inglês comigo, e eu tentava ensinar outras gastando meu portunhol fluente, foi que comecei a me perceber. É barato. Mas, barato, para quem? Certamente não para aquelas pessoas que vivem lá e sequer tem um rolo de papel higiênico no banheiro. Aliás, se for viajar para lá, leve o seu na mochila, conselho de amigo. Durante uma fração de segundo me veio na cabeça uma sinestesia, isto é, várias sensações simultâneas, a de estar explorando os bolivianos e a minha autodefesa de ter feito tudo isso de forma honesta, não tendo culpa direta que a economia deles é muito mais fraca. Na suprema corte do meu tribunal mental, a segunda superou a primeira.

Enriquec. lícito #2: A miraculosa multiplicação das granas

No meio desse caminho, por herança histórica da empresa que trabalhava, acabei permanecendo cliente daquele banco laranja que se diz “digitau”. Eles ainda me tratam com os mesmos mimos, e também continuam com as medidas de segurança que impedem que qualquer um acesse a minha conta. E nesse qualquer um, está incluso: Eu mesmo. Assim, quase sempre tenho problemas em acessar minha conta fora do país, e também quase sempre estava fora dele. Logo, já dava pra imaginar o que estava por vir, e que veio mais pro final da viagem. Ainda bem que consegui sacar algumas garoupas azuis em Corumbá. Devido a falta de infraestrutura na Bolívia, com cartões de crédito não muito bem aceitos, o complexo sistema tributário tupiniquim que taxa tudo quanto é remessa ao exterior se não for em espécie, a leviandade do câmbio oferecido fora das grandes cidades, um verdadeiro assalto à mão desarmada, onde até mesmo aquelas senhorinhas, as cholitas quiseram incinerar minha carteira oferecendo um câmbio 50% menor do que nossos reais realmente valiam. Convenhamos, a sensação de ser assaltado por uma velhinha de saias rodadas não é das melhores.  E, além disso, minha inexperiência. Comecei a ter que racionar o meu valorizado dinheirinho, mas ao mesmo tentando não abrir mão de nada. Absolutamente nada.

Tentei. Tentei mesmo, barganhas para lá, pedidos pechinchentos nos locais de câmbio para cá. Como locais, leia: lojas ou aqueles senhores sentados nas cadeiras de balanço feitas de “macarrão de plástico”, com ar de mafiosos, segurando leques de notas. Algumas coisas foram compradas além do necessário (Ahh... aquelas hamburguesas e salchipapas com recheio sabor bactéria, que inundam a boca de qualquer um, só de pensar), e outras necessárias e devidamente esquecidas, e que só foram lembradas na hora H, quando já era tarde. Num país em que construir banheiros limpos para alugar parece ser um negócio lucrativo, já que eles existem com certa frequência na urbe, assim como nós temos farmácias e padarias. E claro, é barato, mas ainda assim tem que pagar. E, mais claro ainda, os bolivianos na minha carteira, a esta altura, já estavam ficando contados.

Quis andar de Mi Teleférico à vontade até o mirante da Ciudad Satélite, em La Paz (Ótimo passeio). Andei. Quis descer dos microônibus coletivos no meio do caminho para ir em lugarezinhos minimamente interessantes (e pegar outro depois, pagando outra passagem baratíssima, me libertando desse peso). Fui. Pollo dorado? Pollo a la broaster? Pollo a cualquier cosa? Mandei pra dentro. Etc e mais etcs. Sem me importar, pois poucas vezes meu nível de fé e confiança foram mais altos do que minhas preocupações e temores de situações calamitosas. O algo maior que havia comigo preencheu todo espaço que tinha sobrado para o medo.

Até que… Sempre tem um “até quê”. Chegou um momento, após pegar um ônibus para a cidadezinha que tem águas termais quentes chamada ‘Aguas Calientes’ (E o Oscar de criatividade de nomes vai para…), que por sinal recomendo uma parada rápida, e já no sentido de volta para Corumbá; Acomodado em minha poltrona, resolvo devorar a janta, para variar um pouco, um prato que era pra ser de frango com gordura, mas foi o contrário — Nham, nham — fui fiscalizado acerca do pagamento da taxa de embarque, que é separada: Houve dinheiro para ela, ainda que um dos últimos dinheiros, e havia pago. Ótimo! Antes que me perguntem, na Bolívia é comum fazer qualquer tipo de refeição dentro do ônibus, pouco importando se ele tem ar condicionado ou não, e se o cheiro vai se espalhar; Não fui eu quem começou o hábito. Comilança concluída, meu organismo começou a me lembrar, paulatinamente, minuto seguido de minuto, que eu precisava de uma coisa, muito, muito básica, após ter obliterado minha língua e estômago com gordura das mais valentes e colesterol de mais alta categoria: ÁGUA.

“Traga-me um copo d’água, tenho sede / E essa sede pode me matar / Minha garganta pede um pouco d’água / E os meus olhos pedem o teu olhar”
♫ GIL, Gilberto


Minha cabeça me incomodava. Passei pelo deserto e não sofri de fome e sede um minuto sequer. Agora, havia embarcado sem uma gota ao menos do líquido da vida em uma viagem de longuíssimas horas, empanturrado, na qual dizem que passa por um trecho que não há estrada, e sim só um campo aberto, entre uma ferrovia e mato, por onde os carros passam como bem entender. Dizem isso, e muito provavelmente é verdade, pois não consegui ver nada pela janela além da escuridão digna de trevas abissais. Talvez porque realmente nada havia para ser visto. E tudo isso por esquecimento e falta de planejamento.

Quando estava no Salar de Uyuni, tive a oportunidade de ver e me chocar com as múmias — as que sobraram, escapando de serem furtadas — dos humanos primitivos que habitavam a região nos primórdios, mortos em uma pequena caverna nos pés de um vulcão. Se você achou que eram múmias no estilo de suntuosidade egípcia, embalsamadas e enfaixadinhas, esqueça. Pelo contrário, era uma família com “Paizinho”, “Mãezinha”, e “Criancinhazinhas”, todos de pequena estatura, em posição fetal, como se tivessem passado seus últimos minutos esperando a morte chegar, sobre móveis rudimentares feitos de pedra. Sim, agora já esqueletos, mais ainda pareciam transmitir a mesma morbidez de quando ainda eram cadáveres, ou ainda suas agonias derradeiras do ápice de seu trágico fim. Foi uma cena tão macabra que não tive coragem de tirar fotos.

 A causa mortis é um tanto incerta, provavelmente uma morte “morrida” e não “matada”. Contudo, como eles estavam em uma região desértica vulcânica, com escassez de comida e água, em um ambiente um tanto inóspito, fica a teoria que eles tenham morrido por peste, fome ou sede. Eu disse morrer de sede? Por que fui lembrar disso? Péssimo antecedente nessa minha situação.

Me perdoem, mas só tive estômago de fotografar a entradinha da gruta onde os humanozinhos primitivos se abrigavam. Lá dentro, realmente não teve como.

¡Screech! ¡iééé! Uma freadinha. Entra no ônibus uma pessoa com um balde. Berros em espanhol. Demorou um pouquinho, mas percebi que era um vendedor. E ele trazia, nada mais, nada menos que: Bebidas! Ufa! A garrafa d’água custava 7 bolivianos (R$ 3.50), e isso é bem caro lá. Quanto eu tinha? Fora a reserva de emergência nível máximo, que jamais uso, guardada em notas altas e gringas não cambiadas, em lugares que não te conto e até esqueço que existe, — se é que isso valia como dinheiro agora  — contei as moedinhas que davam pouco mais de 7. SETE bolivianos. Assisti minhas últimas moedas se transformarem em valiosas gotas d’água. Posso dizer que fui suprido inesperadamente[4]. Podem existir milagrões e milagrinhos — não fui curado de um câncer em estado terminal — mas esse pequeno grande cuidado que recebi, pretendo nunca mais esquecer.

Enriquec. lícito #3: A famigerada adaptação hedônica

Hedô, o que? Hedônica. Não é uma combinação do nome da vó Hedineusa com a tia Verônica, mas se fosse, talvez seria algo um pouco melhor do que é. O ser humano é um poço de desejos[5] que não pode ser satisfeito; Pouco depois de ir para um nível de prazer sensorial nunca antes alcançado, a gente se acostuma e isso passa a fazer parte de nossa constituição mental como sempre tivesse sido assim: Logo logo voltamos a achar pouco e começamos a buscar mais. De novo. Apenas uma pequena parte desse prazer sensorial se converte em satisfação. E isso não é bom, nem ruim. É apenas uma característica evolutiva, comum tanto a esse homo sapiens que escreve, e quanto aquele outro que está lendo isto. Quando já estava começando a me acostumar a ficar lá, nesse padrão de vida king size, era notável que isso estava despontando em meu interior.

Veja as lições que trouxe da Bolívia


III - O nome dela é Jéssica

Tangier, Marrocos, 9.745 km ✈ até Pequim

Era o ano de mil novecentos e dois mil e alguma coisa. Hoje, todos os dias saem das maternidades safras de crianças chamadas Lorenzo/Enzo e Valentina. No campo "Filiação" das certidões de nascimento contemporâneas, vemos uma leva de Gabriéis, Brunos e Brunas, Lucazes e Jéssicas. Afinal, chamar uma criança com nome de Irene ou Francisco, não é mais socialmente aceito, nem supimpa.

Virou nome de vó. Imagina a cena:

— JUPIIRINHAAA, termina de almoçar e vem logo!

— Já tô indo, tia Sophia Giovanna, péra!

Na minha infância, Jéssica era um nome muito popular. E é por isso, e também por não querer revelar a verdadeira identidade da guria que viveu essa história junto comigo, que vou batizá-la assim por aqui. Ela tinha, mais ou menos a minha idade. Já que estávamos no Marrocos, poderia ter sido Lucas e Jade, mas gostaria de transparecer que, mesmo anônima ela poderia ter sido qualquer outra jovem vinda de uma cidade grande brasileira entre vinte a trinta anos, então ficou assim, por pura empatia. "Tudo jóia?".

Como a coisa começou

Antes de mais nada, eu cheguei no Marrocos pra lá de Marrakesh (♫), dei um rolê pelo deserto do Saara, passei por Fez, onde não vi muita coisa especial por lá, digo, nada que a singularizasse muito diante de outras cidades marroquinas, exceto o fato de não terem tentado me passar a pena tantas vezes assim. (Eu também já estava ficando vacinado contra isso). Bem feijão-com-arroz. De lá, fui para Chefchaouen, a cidade azul marroquina, no qual me impressionou bastante. Me fez lembrar, que quando criança, eu tinha um travesseiro (devidamente babado) dos Smurfs, e às vezes, ficava imaginando como seria se aquilo fosse real. Um dia, quando você menos espera, as coisas se realizam. A Jéssica também tinha passado por lá, mas foi em Tangier, que nós nos conhecemos. Uma cidade portuária do país, bem próxima geograficamente a Espanha, e que é vista por muitos candidatos a migrar da África pelo Velho Continente como o último local de passagem. É uma cidade que “tange” tanto o Oceano Atlântico, quanto ao Mar Mediterrâneo, o que a confere um grau de importância logística e um quê de portal mágico para o velho mundo no inconsciente coletivo de muitos africanos, e eu arrisco a comparar como uma “Governador Valadares” em relação aos EUA. Aliás, se você sempre quis saber porquê a Tangerina tem esse nome é uma boa hora. E se você a chama a de Bergamota ou Mexerica, provavelmente chama Biscoito de Bolacha, o que é um imperdoável atentado violento contra o vernáculo lusitano (aham, falei bonito agora, hein!) e devia ser condenado se autoflagelar com 200 chibatadas menos uma, no lombo. Bixcoito forever!

"O nome dela é Jéssica / Eu já falei pra vocês / É a coisa mais linda / que Deus pode trazer"
♫ TADEU, Roberto (Bebeto)

Que o nome dela não é Jéssica, isso eu já falei, mas ela realmente é (era?) a coisa mais linda, e talvez Deus tenha a mesmo trazido, dado o que se passou. Nós estávamos ali para voltar a Europa e tentar chegar até a Portugal, por coincidência. Bééé. Chegar no Marrocos foi bem fácil e barato, já sair dele nem tanto. Eu tinha uma data marcada para voltar para a Europa, e precisa voltar para lá naquele dia, ou no máximo no seguinte, sacrificando possivelmente algum destino. E ela, ídem. E justamente, naqueles dois dias tudo estava exorbitantemente dispendioso e os transportes que eram normalmente mais baratos, lotados e indisponíveis. Foram noites pesquisando antecipadamente passagens e alternativas, em vão. Então resolvi tentar a sorte em alguma embarcação nos portos de Tangier, e ela também. Nos hospedamos, cada um individualmente, sem saber da existência alheia, no mesmo hostel da Medina Tangerina, se é que podemos chamar assim. Bééé.


Era um dia quase normal do Marrocos

Digo quase, pois havia uma quantidade meio exagerada de carneiros por lá. Bééé. As Medinas, no país, são os centros antigos das cidades, mas põe antigo nisso. Dentro delas, geralmente tem um souk, um tipo de mercado tradicional, ao pé da letra, onde o lendário comércio árabe acontece, e são cercadas por muralhas. São muitos becos, vielas e caminhos de minhoca. Mas é bonito, te garanto.

Com todo respeito a cultura, se aquilo fosse construído no Brasil, nos tempos e com as técnicas de hoje, seria chamado de outra palavra de três sílabas: Que-bra-da. Mas como foi construída a centenas de anos atrás, e é praticamente a origem das cidades marroquinas — cada cidade grande tem sua própria Medina — possuem todo um significado histórico e social, além de ser uma atmosfera que nos mostra aquele povo em sua essência, ao menos na minha opinião. Uma coisa, porém, é mais do que certa. Conte até dez, veja o passarinho voando, e você já se perdeu. E existem alguns moradores, que quando vêem um turista minimamente perdido, prontamente se oferecem para dar uma informação. E logo após, quando você diz "Muito obrigado", eles te cobram pelo favorzinho, pois você é turista, e turista sempre tem dinheiro. É muita generosidade, só que ao contrário.

Voltando a falar sobre a Jéssica, quando a conheci, conversa vai, conversa vem, combinamos de voltarmos juntos para a Europa ainda naquela tarde. Essa frase isolada poderia dar um romantismo tal a cena, mas naquele contexto, era algo muito simples. Confesso, estava há algum tempo só, e provavelmente ela também, já que ambos estávamos viajando sem companhia. O ensejo é que estávamos em um país culturalmente machista, onde a chance de ela estar sendo não muito bem tratada pelos homens, de modo geral, era grande, o que seria uma ótima oportunidade para tentar algo, com terceiras e quartas intenções. E era fácil, era só tratá-la da maneira como uma mulher merece ser tratada. Ela parecia moderninha, meio smartgril, e demonstrou saber improvisar e se virar muito bem nas situações. Meninas que estiverem lendo, por favor, lembre-se que o cérebro masculino se comporta de forma tipicamente predatória e mais racional, e é assim que funciona, e eu só não tenho problemas em descrever isso.

Nós já estávamos saindo, eu só ia arrumar as bagunças e trocar a roupa de dormir por uma mais apropriada, enquanto ela só ia ali, rapidinho, comprar um artigo de extrema necessidade, vida ou morte: Uma garrafinha pequena de Óleo de Argan. Rapidinho, 2V, vai e volta. Bééé. Eu comecei a conversar com a galera do hostel, e até esqueci da vida. Mas essa Jéssica tá demorando, hein?! Vou acabar ficando encalhado aqui por causa dela. Tchau Jéssica, a gente se encontra em algum lugar do mundo, afinal não tínhamos criado vínculos. Ela chegou aqui sozinha e sem ajuda, e vai sozinha, sem ressentimentos, vai dar tudo certo. Mas senti que não, devia esperar.

Vambora, Jessicá!

Quando ela voltou, estava muito diferente. Como uma chaminé industrial, expelia ares de sentimento de injustiça, misturada com "não acredito que ISSO aconteceu, mas aconteceu", e uma pitada de fúria perceptível. Seus lábios tentavam balbuciar que estava tudo bem, mas de alguma maneira sua alma transmitia que algo grave tinha acontecido. Isso o quê? Não sabia ainda, só sabia que este "isso" não era nada bom e me preocupou. Psicologicamente falando, o que eu queria que saísse de uma friendzone modesta, uma relação de amizade, e passasse a ser uma relação eros, acabou virando uma relação philia, isto é, fraternal, ainda que naquele instante.

Ela saiu para ir tirar satisfações e eu fui atrás, sem pestanejar muito. Certamente ela iria precisar de um ombro amigo. Em resumo (como resumir esse tipo de coisa nojenta?), ela havia sido atraída mais pra dentro da loja do vendedor — que estava sozinho — bem mais lá pra dentro, onde o canalha tentou agarrá-la, beijá-la a força, e sabe-se lá mais o quê, se ela não tivesse escapado dele. Dado isso, quando achamos a loja de novo dentro daquele labirinto que se chama Medina, o malandro a havia fechado mais cedo, em pleno movimento de comércio a todo vapor. Mas ele devia morar no local, pois parecia ser um pequeno negócio de família, e facilmente foi encontrado. A essa altura, ela já estava perdendo a cabeça, e com motivo. Orientei para que ela tirasse fotos, apenas para produzir provas, ainda que tardias (CSI Marrocos), e imediatamente um vídeo da cena já foi mandado para o Brasil via WhatsApp. Mas a dona Jurema, mãe da Jéssica, que devia ter ficado preocupada e muito com ela desde o primeiro dia de sua partida, não ficou sabendo de nada. Bééé. Acho que ainda bem, até. Depois de batermos com a cara na porta, eu e Jéssica consentimos que era necessário fazer alguma coisa, ainda que muito provavelmente não fosse dar em nada, pois se permanecêssemos de braços cruzados, aí que não daria nada com certeza absoluta. Então fomos.

No meio da cidade, havia uma praça

E no meio dessa praça haviam pessoas. Muitas. Vendedores de quinquilharias e eletrônicos semisucateados, sucos de tamarindo com limão, e dos bons, afinal, na proibição de bebidas alcoólicas é que a criatividade aumenta, e não ao contrário. Muitas categorias de pessoas, exceto um certo tipo: Polícia para quem precisa. E foi um sufoco para encontrar um espécime desse tipo. Dúzias de perguntas em vários idiomas diferentes, até que fosse possível encontrar um deles: Não usava uniforme, e nem ostentava identificação, mas dizia ser polícia. E quem sou eu para discordar? O tal "puliça" nos conduziu por dentro da labiríntica Medina, encontrou o sujeito, e o trouxe de volta para a praça. As vielas da Medina são muito apertadas para a circulação de automóveis, logo

era preciso fazer isso a pé. Ao mesmo tempo que se interessava pelo caso, o policial tentava fazer de tudo para que a Jéssica desistisse de prestar a queixa. E quanto mais isso acontecia, mas ela fica revoltz, e com toda razão. Como quem dissesse "Então tá, né, já que você insiste", ele conduziu todos os dois para a delegacia. Bééé.

“Mas não... permaneço vivo, prossigo a mística / Vinte e sete anos contrariando a estatística”
♫ BROWN, Mano

Por mais que eu tivesse muita vontade, pressa e necessidade de sair daquele país e escapar daquele cheiro de bode, não podia deixar a Jéssica ser levada assim, sozinha. Passou na minha cabeça um filminho, onde ela estava sendo extorquida pela "puliçada" lá dentro. E lá vou eu. Pela primeira vez na vida, entrando em um camburão. Vinte e quatro anos contrariando as estatísticas: Não foi como bandido, nem como vítima, ou por ser negro de origem pobre, ou ainda por ouvir Racionais, muito menos no Brasil, mas foi com roupa de dormir, falando três línguas e no meio de uma viagem internacional. LÁ-VOU-EU.

Vocês tem o direito de NÃO permanecerem caladas

E tudo o que disser será usado a seu favor nos tribunais. Pelo menos nos lugares onde o trabalho da polícia parece ser sério. O prédio da delegacia não era muito amigável, e nem muito bem frequentado, pra variar. O policial do camburão agora já dispunha de uma equipe, incluindo um suspeito tradutor inglês–árabe–inglês. E eles buscavam garantir de todas as formas que a Jéssica desistisse de sua queixa, apesar de o meliante ter sido capturado.

— “Você não tem provas.”
        — “Não vai dar em nada!”
        — “Ele não fez nada demais com você…”
        — “Não entendo porquê você quer registrar isso.”
        — “O que vai mudar na sua vida se você registrar queixa?”

Ainda que devidamente traduzidas e adaptadas de um inglês com bastante sotaque árabe, essas e outras frases eram repetidas incessantemente pelos tais homens da lei, com intuito de “incentivar” a Jéssica. Incentivar a não registrar a queixa, claro. Éramos levados de uma sala para outra a todo instante. Sala, corredor, outra sala, salinha. Um "incentivo" atrás do outro, e nada melhor do que um chá de cadeira para relaxar.

Aquilo já estava passando dos limites e um teatro da vida real estava se descortinando. Não necessariamente nessa ordem, o sujeito implorava de todas as formas possíveis, com uma expressividade brutal, o perdão real a ser concedido pela rainha Jéssica. (Muito curioso, um sujeito que não teria feito “nada demais”, estar clamando por perdão assim tão intensamente.) Depois, aparece a esposa do sujeito, e PLAFT! Já encontra o marido abordoando-lhe um tapa na cara. Depois, aparece um “suposto” filho (não sei se era de verdade), uma criança-objeto trajando vestes tradicionais, reforçando as outras dezenas pedidos de retirada da queixa. Tem horas que, na vida, as coisas não saem do papel. Mas nesse ponto, tudo e todos conspiravam para que esse registro não fosse impresso em um papel de boletim de ocorrência.

Seriam as maquiagens maquiavélicas?

A essa altura a Jéssica já se debulhava em lágrimas. Era preciso fazer uma pausa dramática. Em um acontecimento de insana sapiência e fé levei ela para a janela, ainda sob a visão indireta, de costas, mas fora da audição e uma possível compreensão de qualquer outro serumaninho ali presente, já que não é muito difícil encontrar marroquinos poliglotas. Ela abriu seu coração e disse que já tinha sido vítima de alguns outros abusos, e essa sina lhe perseguia. Foi nesse ensejo que suas maquiagens faciais e emocionais começaram a borrar, é que foi possível enxergar uma outra Jéssica, mais elementar, contrita, insegura de si, sublimada em uma imagem de uma pessoa muito bem sucedida, que conseguiu atingir os sonhos de sua juventude compatriota: um cargo em uma grande empresa privada high tech, viagens, um belo corpitcho por baixo do look do dia e muita popularidade nas redes sociais.

Haviam muitos atores naquela cena. Até mesmo a Jéssica representava uma pessoa que não era ela. O seu “trabalho” no Google, não era bem assim, um trabalho, e também, não era bem assim, no Google. Dava pra farejar uma Bel Pesce (Não conhece? Procure no Youtube sobre essa “indivídua” que você vai entender). Ela era realmente atraente, já disse isso. Mas, depois, ao ver suas fotos numa certa rede social pictográfica, percebi que online ela era quase uma capa de revista. Como uma luva, ao ser colocada nas mãos vai de encontro aos dedos, ela se encaixava aos rigorosos padrões de beleza impostos pela sociedade atual, na rede. A menina-mulher que estava vendo naquele momento não era a mesma que levava embrulhado para presente, todos os dias, vários likes, curtidas, e joinhas. Tinha algo estranho. Parecia que faltava uns cinco quilos de photoshop, não sei dizer. Não sabia muito bem o que fazer. Me veio na cabeça perguntar se ela acreditava em Deus. Resposta positiva, e fiquei sabendo que ela, no passado, havia frequentado o Bola de Neve, assim como eu, mas na ocasião estava vivendo outros caminhos. Olhamos para o alto, e pedi a Ele que colocasse no coração dela a decisão correta a ser tomada. Afinal, deveríamos perdoar 70 vezes sete vezes, e sabíamos que realmente a queixa não daria em nada policialmente falando, mas podia trazer consequências aquela família. Mas não deu outra. A partir daí, a Jéssica ficou dura e implacável. E eu fiquei também, junto com ela.

Depois que voltamos desse pequeno grande encontro, encaramos de outra forma. Não havia balido de cabra, em ambos os sentidos (Bééé), que nos ia fazer parar com aquilo. E eles começaram, cada vez mais a ficar policialmente incorretos, fazendo várias vezes perguntas confusas e meticulosas, e a cena terminou com:

Nossa desconfiança do tradutor; As tentativas vãs de entrar em contato com a embaixada brasileira em Rabat; Um pedido de ajuda a outro senhor policial meio nanico, mas com ar de manda-chuva, que azedou ainda mais o humor da “puliçada” inicial, sem embargo de ter resolvido; A Jéssica tentando gravar o áudio da conversa em árabe com seu celular; Os “puliça” pegando o celular dela; Ela dando uma desculpa esfarrapada e criativa por ter gravado “acidentalmente”; Eles a fazendo assinar um documento escrito em árabe, onde, do alfabeto, só entendíamos rabiscos e minhoquinhas, e ainda sem direito a uma cópia; e a gente evaporando daquele lugar. Aplausos da platéia.

Bééé... Cabeças vão rolar!

No Marrocos eles não contam os carneirinhos antes de dormir. Eles os matam. Mas precisamente no dia da Grande Festa Muçulmana do Sacrifício, que é uma data móvel, pois se baseia no calendário lunar, e a gente no solar. E caiu justamente nesse dia, nós que éramos desinformados. Uma explicação para o mistério das ovelhas começou a surgir: Cabeças caprinas e ovinas iam rolar. “Bééé béé ñbééé bé”, traduzido do cabritês, deve soar algo como “Socorro, me ajudem, essa noite vão pedir minha alma!”.  E claro, só havia uma certeza: Era a hora de deixar aquele país. Havia passado da hora, na verdade. Fomos, depois do acontecido, tentar achar um lugar para fazermos a primeira refeição do dia, já ao entardecer — e eu ainda com roupa de dormir — porém a maioria dos restaurantes estavam fechados ou fechando. Tudo começou a fazer sentido: A festa para eles, seria como a “véspera de natal” para gente. As passagens caríssimas, muita gente no comércio, ânimos agitados e gente reunida.

Se valeu a pena todo esse trabalho? Por mim, valeu. Garanto que o sujeito não vai esquecer do ano em que ele foi levado de camburão, em praça pública, e levou um tapa na cara da esposa na delegacia, em plena “véspera de natal”. De uma forma ou de outra, a justiça aconteceu.


Fomos embora daquele país, pegando uma condução que nos deixou no porto de ‘Tangier Med’ (muito mais barato). Ela já tinha passagem comprada para a barca Balearia, que faz essa lendária travessia transcontinental, mas que na prática lembra mais uma travessia Rio–Paquetá, ou ainda Salvador–Itaparica. Fizemos amizade com uma funcionária marítima, que já estava indo trabalhar atrasada e perdeu a hora do embarque ainda no trajeto. Ela nos orientou. A grana tava curta, mas conseguir comprar a passagem no mesmo barco que ela, pagando no cartão que custou a ser aceito, e ganhamos comida, e da boa, do restaurante que estava fechando. Naquela ocasião eu tinha duas certezas: Deus me ama. Deus ama a Jéssica.

Fomos dormindo, meio que amontoados, no convés interior. Depois, quando voltamos a tão desejada Europa, passamos na imigração sem perguntas, e fomos terminar de dormir no chão do terminal portuário, com nossas malas, até que horas depois um guardinha, com toda a “cordialidade” espanhola (só que não), colocou a gente pra fora. E foi lá fora mesmo que acabamos a noite de sono.

— “Sua mala é muito macia”, disse ela pra mim, após ter usado a minha como travesseiro.

Beijinho, beijinho, tchau, tchau

Algeciras, Espanha, 9.691 km ✈ até Pequim

Mal sabia eu que, tempos depois, ela postaria para os seus seguidores, algo mais ou menos assim, devidamente recriado para proteger a identidade da guria:

@jessica 20 horas atrás

“...desbravei a linha do horizonte, velejei pelo mar mediterrâneo...”


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Jéssica bombando nas redes sociais

Sério Jéssica, que a gente velejou assim, tão poeticamente? Até que ponto vale a pena tentar pintar o mar de azul? Foi uma experiência muito valiosa, mas bem longe de ser ‘glamourosa’ do jeito que você transpareceu. Aprendemos bastante, mas é evidente que eu não queria passar por isso de novo. Contudo, caiu na rede é peixe. E assim terminou a fantástica viagem de Jéssica nas redes sociais, e não tão fantástica assim na realidade. Palmas para ela.

Tínhamos tudo para passar um outro dia juntos, só que dessa vez, de outra maneira, curtindo e se divertindo. Agora estávamos nas Zoropas. Ela poderia lagartear a vontade nas praias, e de quebra conhecer Gibraltar, um minúsculo território britânico encravado na Espanha, que; o que tem de pequenino, tem de interessante, atravessando (sem ser voando, ufa) pela pista de pouso de um dos aeroportos mais perigosos do mundo, onde o semáforo fecha para os carros quando o avião está passando. Melhor e mais barato do que ir para Londres, ao menos para mim. Mas ela resolveu do nada, estancar, pegando o próximo ônibus para Madri e me deixando ali. Lhe comprei uma garrafa d’água (com os euros dela, claro) como último gesto de gentileza. Ela se desculpou dizendo que tinha que pegar outro vôo cedo lá, apesar de nas nossas contas haver tempo de sobra se ela quisesse ficar, e, de quebra, ainda seria mais econômico e racional.

Só me restou fazer o passeio sozinho, mas exagerei no suco de maracujá, acabei dormindo e perdi o celular na volta. Depois fiquei sabendo que o ônibus dela enguiçou no caminho e mais tarde ela arrumou outra treta com usuários de drogas em um outro hostel. Enfim, poderia ter sido diferente...[6]

Acho que no fundo, ela sacou e queria ficar comigo. Só não queria que ninguém soubesse disso. Eu poderia servir para ela, mas não o suficiente para aparecer no seu “Insta”. Ela perguntou quando eu iria voltar ao Brasil, e eu respondi que próximo ao final do ano. Eu e ela já estaríamos no Brasil nessa época. Antes de partir, ela comentou comigo algo a respeito de um “peru de natal” no Rio, um tanto impróprio para menores de 80 anos, mas para manter esse parágrafo "só para baixinhos", vou deixar que a frase fique apenas no seu "lindo mundo da imaginação" (♫). Aham, Jéssica, senta lá. No final, não rolou beijinho beijinho. Apenas, tchau tchau.

Veja as lições que trouxe do Marrocos


IV - O país onde eu nasci de novo. De novo.

Salvador, BA, 16.162 km ✈ até Pequim

Vixe mainha. Já estamos na Índia, e eu já havia atravessado metade do planeta. Mas eu tenho a insana mania de lembrar de coisas e de pessoas, e são essas lembranças são as pontes que me permitem fazer certas conexões e identificar algumas coincidências bastante convincentes e nada convenientes. Muito, mais muito antes de chegar aqui, eu tive um insight, em pleno magnífico nordeste brasileiro, que serviu como peteleco inicial da motivação que me trouxe ao caminho das Índias. Para te contextualizar, ilustríssimo leitor, eu vou colocar ele aqui, mas você pode pular se quiser (tomara que não). Coloquem aquele efeito sonoro de sonho/lembrança mágica. Eu me recordo de uma cena mais ou menos assim:

(sala de embarque do aeroporto do Galeão; Rio de Janeiro)

Voz do alto-falante: — Passageiros com destino a Salvador, seu embarque está sendo realizado no portão…

Funcionário da cia. aérea ‘Latão’: — “Senhor Rodrigo?” Acenando para mim, que estava com a calça caindo porque tive que tirar o cinto para passar no Raio X correndo, enquanto eu fazia cara de paisagem, pensando: Quem será esse sinhô Rodrigo?

Voz: — “Última chamada para embarque. Senhor Rodrigo Martins dos Santos, compareça ao portão de embarque de número...”. As vozes de aeroporto são igual as vozes de nossas mães. Quando chamam pelo nome completo é porque a coisa está feia.

Funcionário: — Desculpe, senhor Rodrigo, mas esse bilhete aqui está no nome de um tal de... Lucas. (enquanto conferia a minha identidade)

Eu: — “Sim, sou eu Lucas. Lucas Rodrigues Martins.”, como quem estivesse dizendo: Meu nome é Bond, James Bond.

Voz: — Embarque finalizado.

Funcionário: — Desculpe senhor, mas o senhor não vai poder embarcar nesse avião.

Perder o vôo dentro do aeroporto (por erro de digitação deles) foi só mais um entre os 538 contratempos que tive para fazer essa viagem que era pra ser de recuperação e férias mentais. Parecia que algo não queria deixar eu fazê-la. Eu já tinha adiado ela umas quatro vezes por motivo de saúde, agora mofar por mais quatro horas até o próximo vôo não seria um problema para mim.

Cerca de 24 horas depois, estava teimosamente em uma embarcação que navegava pela Baía de Todos os Santos. Enquanto meu intestino digeria acarajés, eu observava as pessoas. Umas dormiam sob o embalo das ondas, outras assistiam a novela, onipresente, sintonizada na pequena tevê de tubo. Era muito legal ver mais pessoas negras além de mim, em todos os lugares, já que no meu trabalho, faculdade e ambientes elitizados que às vezes frequentava não era bem assim. (Essa sensação só foi superada em viagem a África.) Estava meio incerto, mas ao mesmo tempo resoluto: Eu tinha uma decisão importante a tomar, e a estava tomando naquele segundo.


“Eu vou descendo por todas as ruas / E vou tomar aquele velho navio / … / Eu não preciso de muito dinheiro / Graças a Deus! / … / E não me importa não / A minha Honey Baby!”
♫ COSTA, Gal

Olha só o que eu havia feito da vida até então: Tinha estudado aos montes — houve uma vez que saí de uma prova, a tarde, cheguei em casa e fui dar uma ‘dormidinha’, ali no colchão. De tão cansado, acabei dormindo quatorze horas seguidas e acordei já atrasado para a prova da manhã seguinte — E trabalhado duro. Okay, eu tinha um bom emprego na Barra da Tijuca, a "Miami" carioca, morava em um bairro sobrevalorizado e fazia as refeições em lugares mais refinados. Foi só isso que meus anos de estudo me proporcionaram. E mal conseguia desfrutar do dinheiro que ganhava, pois o trabalho me sugava quase todo o tempo, e o cansaço o restante. Alguma coisa errada não estava certa. Mas o quê? Afinal, fiz tudo que meus pais falaram pra fazer e os colegas fizeram. O dinheiro que eu ganhava com uma mão, gastava com a outra. Era a primeira vez que eu viajava para um lugar que o custo de vida era significantemente menor, mas ainda dentro de um país onde o direito de ir e vir ainda existe. Onde talvez, eu pudesse trabalhar menos e viver mais. Em países fechados como a China, não é tão fácil se mudar de uma cidade para outra, pois o governo te controla, mas na república tupiniquim, era só deixar de pegar o avião de volta e alugar uma casa, estava tudo certo. Simbolicamente, um bichinho me mordeu ali. Se alguém estivesse sentindo um cheirinho de queimado naquele 'velho navio', com certeza, seriam meus neurônios pensando: O que seria melhor? Confronto ou conforto? (♫)

O que é que Nova Délhi tem?

Nova Délhi, Índia, 3.784 km ✈ até Pequim

Foi em plena Bahia que decidi: Poderia ficar naquele conforto de receber um salário no final do mês, na minha comodidade duramente conquistada, pagando pra manter um padrão de vida egoísta e exacerbado e ganhando um dinheiro que não conseguiria gastar, a não ser para sustentar o próprio padrão, além de abrir mão da saúde, gerando mais um ciclo vicioso de inutilidade de propósito.

Ou poderia me libertar desse fardo. Pois se eu parar pra ver, o tempo passou, mas ainda há tempo pra ser o que eu quiser que seja (♫). Feche os olhos. Não, espera aí, sei que você não pode ler de olhos fechados, mas imagine se essa situação, quiçá não se aplique a você, e o que mais eu poderia além de aceitar essa proposta que a vida me deu? Eu peguei aquele avião de volta, mas já não era mais a mesma pessoa. Não foi nada fácil decidir, mas eu já não precisava de tudo aquilo. Descomplicado assim. E você aí, precisa mesmo de tudo isso?

O restante você já deve ter imaginado. Não dei a desculpa que ia trabalhar na ‘Novos Desafios S.A.’, como outros colegas fizeram. Pedi pra sair. Adiós, emprego fixo que escravizava meus dias em horário comercial. Pronto, cheguei em Delhi, não que eu a tenha escolhido por livre e espontânea vontade, mas por que eu não tinha um visto chinês e era mais barato viajar assim, por livre e espontânea pressão, além da vida ser muito muito mais barata, até mesmo do que no Nordeste brasileiro. Uns dias aqui, sendo fotografado pelos locais como se fosse famoso, já foi o suficiente para denunciar a futilidade da minha vida até agora. Foi uma das adaptações mais difíceis que encarei. Reaprendi como evitar a pimenta, que dá vontade de engolir a própria língua. Reaprendi a me vestir — como um indiano: sempre de calça comprida, camisa listrada com botões na frente e no meu caso, a versão original do chinelo que todo mundo usa, ‘As Bahamas’ — para me camuflar entre os locais, aproveitando a cor da minha pele — e escapar do assédio aos turistas. Reaprendi, ou melhor, desaprendi inglês. Meu corte de cabelo mudou, o meu jeito de pedir licença nas ruas também. Ao invés de dizer sorry, eu já empurrava, pois é assim que se faz por essas bandas. Ser revistado, e algumas vezes com longas filas, ao entrar no metrô e na maioria dos prédios de acesso público virou cotidiano. Aos poucos, estava reaprendendo a viver. E era só o começo do começo...

O motoqueiro fantasma e o mistério do cartomante

Rishikesh, Norte da Índia, 3.608 km ✈ até Pequim

O trânsito na Índia não é muito, bem, essas coisas. Na real, não é nem muito fácil de descrever. Eu poderia dizer que andar na contra-mão é algo super normal lá. Mas nem isso posso falar, ou as ruas são de mão tripla, quádrupla, ou não existe mão! As motos, que em tese, seriam para duas pessoas, podem carregar três ou quatro. A regra nos veículos bem que podia ser: Enquanto for fisicamente possível caber uma parte do corpo de uma pessoa, cabe mais um. Mesmo que não seja um inteiro, mesmo que as pernas ou a cabeça fiquem para fora, coisas do gênero. A única regra é não ter regras. Louco, insano, abissal. É difícil decidir o que incomoda mais: A poluição, que cria placas de gosma em sua garganta, ou o azucrinante barulho das buzinas a cada dois segundos. A sinalização de trânsito até tenta existir, mas é mais decorativa. Quando li pela primeira vez — a título de curiosidade — que um capacete de motociclista pode resistir a força da batida contra uma vaca, fiquei impressionado. Mas lá, há muitas vacas soltas pelas ruas e ninguém usa capacete. Vai entender...

Naquela semana eu estava anormalmente destemido e determinado a aprender coisas novas, e em Rishikesh, cidadela turística, destino de pessoas que buscam desesperadamente até, por retiros e “escapadas” espirituais — o que estava longe de ser o meu caso, cheguei ali por chegar, seguindo recomendações — e famosa por ter recebido Os Beatles no passado, com esse objetivo. Quando cheguei naquela pequena cidade, e vi diversas agências de viagem alugando motos, não pude resistir. Mas só tinha um pequeno detalhezinho de nada: Eu não sabia andar de moto. Bicicleta, eu só aprendi a andar depois dos dezoito. Até consegui tirar o porte de arma a carteira de habilitação, mas utilizei poucas vezes na vida. Skate? Sim, eu fui capaz de quebrar uma rodinha antes mesmo de aprender. Também, quem mandou pesar meia tonelada? E rolimã? Não, sequer velotrol.

Você pode achar que eu estava doidão, dado o meu histórico, de querer andar de moto em meio aquela muvuca declarada. Mas eu achei um ainda mais louco, uma agência que me alugou uma moto (scooter, como eles chamam; escuta) com instrutor e tudo. O preço? Cerca de 15 reais por dia, mas o valor da hora aula do instrutor, vulgo teacher, cerca de 20. Enquanto isso, no Brasil, uma motoescola não sairia por menos de mil reais. Não dava pra perder, nem que fosse a última coisa que fizesse na vida. Doce ironia...

Estava descendo a grande ladeira, a caminho da minha aula de “Introdução a condução de motocicletas em meio às trevas e caos para leigos”, quando uma mão toca em minha pele:

— “U ari so happy! Canai rid io hand?” “Você está tão feliz! Posso ler sua mão? Disse o cartomante que surgiu do nada; Não sabia a quanto tempo ele estava me observando.

E eu não sou o tipo de pessoa que dá crédito esses “profissionais” do futuro. Não confio nem em previsão do tempo. Porém não sou cético, pelo contrário, eu acredito que o mundo espiritual existe, porém não é tão simples de ser percebido, pois estamos falando de dimensões maiores do que somos acostumados a captar. Eu respeito quem não acredita nisso; Tudo bem, esses serão os primeiros a concordar comigo nessa situação. Portanto, me preocupei em trazer aqui duas boas razões para isto.

Primeiro, a lógica: Você já assistiu o seriado "As visões da Raven", que passava nas tardes do SBT, ou talvez no YouTube? Uma narrativa em que a protagonista psicodelicamente recebe flashes de cenas que vão acontecer no futuro próximo. Só que ela faz de tudo para que as visões — que vão acontecer — não aconteçam, com as devidas trapalhadas, o que, claro, acaba fazendo com que as visões aconteçam de fato. Sem contar que quase sempre ela via as cenas pela metade, o que gerava sofrimento antecipado, pois o que ia acontecer seria sempre terrível, ainda que o acontecesse de fato fosse terrivelmente bom. Se saber o que vai transcorrer no futuro não vai mudar nada dele e ainda pode te confundir, para que criar mais um lapso temporal, e pegar o bonde andando? Você não iria querer assistir o filminho da sua vida com a dublagem do SBT, iria?

Segundo, a de fé: Se eu acredito que existe um Deus, e que existem 'Espíritos' e 'espíritos'; E passado, presente e futuro foram criados por ele[8], por que dar ouvidos as urucubacas cotidianas? Eu só acho que se as pessoas pensassem um pouco mais, aquelas crenças religiosas que são produtos de mentes humanas iriam para o limbo. Isso tudo fica a seu critério[9].

“Nesses novos dias / as alegrias / Serão de todos é só querer. / Todos os nossos sonhos / serão verdade ∕ e o futuro / já começou.”
♫ DALE, Cecília

Baseado nisso, eu neguei tal convite. E quanto mais eu recusava, mas ele insistia, até que a situação evoluiu para ao ponto em que ele tentava pegar minha mão à força e eu a fechava como se fosse dar um soco. Parecia que ele realmente tinha uma coisa pra me contar. Você está ficando curioso(a)? Desculpe, não quis saber para poder te dizer, e hoje eu digo que foi uma sábia decisão. Afinal, acho que hoje eu já sei, pois “o futuro já começou”!

Com o cartomante devidamente desvencilhado; pude finalmente começar minhas aulas de motociclismo aventuroso, guiado pelo teacher.

— “Você está indo muito bem!”, disse ele, e confesso que foi muito bom ouvir isso, dado meu triste passado sobre rodas.

— “Buzine, sempre buzine”, me introduzindo na arte da poluição sonora.

— “Despacito!” Despacito, baby! (♫) Ele me disse agora. Eu estava indo bem até demais, já acelerando com tudo. É impressionante como essas músicas são como baratas, transcendendo as definições de tempo e espaço. Frequentemente eu também era recebido com outra música jurássica cuja letra é igualmente cult: “Bra-zil! La La La... La La La... La La…” (♫)

E nossa aula segue:

        — “Nessa área da Índia você pode encontrar elefantes”, me advertiu ele, na estrada mata adentro. Nós demos uma paradinha para que ele bebesse água de uma poça, me garantindo que era de nascente. Ah, e eu tinha que ter feito as seguintes perguntas, não é?:

— O que acontece se eu atropelar um cachorro?

— “Nada”.

— E uma vaca? O que acontece se eu atropelar uma?

— “As pessoas não irão gostar muito”, me retrucou, meio pensativo, minimizando de maneira colossal o que provavelmente aconteceria de verdade: Eu ia ser linchado, afinal elas são sagradas por lá. Eu é que estaria mal passado.

Tirando o fato de que eu não conseguia me acostumar com a mão inglesa, as aulas foram concluídas bem rapidamente. Faltava pouco para meu objetivo, que era de chegar na cachoeira de Neer Gahr, e era super fácil: Só subir o ladeirão quase na vertical segurando firme, ver se não vai chover, me emaranhar no engarrafamento da estrada principal, desviar das montanhas de lixo, abastecer a moto sem ser enganado pelos pega-turistas, se esquivar das vacas, não atropelar ninguém, passar inteiro penhasco acima e finalmente chegar na ‘cachu’. Ah, e torcer para não trombar com um elefante, quase esquecendo. Ninguém me avisou que ia ser difícil, então fui lá e fiz. Sem sofrimentos antecipados, a gente vive muito melhor. Se gastasse tempo imaginando o que seria daquela aventura, ela com certeza não seria. Cheguei lá, vivinho da silva, aproveitei bastante aquela cachoeira-formigueiro — ao ficar sabendo que só a população do estado indiano de Uttar Pradesh é maior do que a do Brasil inteiro, era de se esperar  — fiz questão de experimentar o ‘Maggi’, uma espécie de miojo do mal picante com curry, servido nas quedas d’água… Muito bom!

Na hora de voltar é que as coisas começaram a ficar mais sombrias. Você lembra que eu citei que era preciso subir uma espécie de penhasco, lamacento, para chegar? Pois bem, agora era a hora de descer aquilo tudo, eu ainda úmido. É amigos, esse é o parágrafo em que eu morro. Ainda que pelo mesmo caminho, as descidas são muito diferentes das subidas. Afinal, a moto iria deslizar em cima aquele abismo como peixe ensaboado e só iria parar com a força do impacto da colisão com uma das pedras que estavam ocultas sob o barro e pó. Podia ser que, do pó eu vim, para o pó eu estaria voltando de imediato. Ao menos foi uma maneira cinematográfica de morrer. Mas não. A moto ficou dando trancos e não quis mais ligar. A cena terminou com eu caminhando, empurrando a motoca por quilômetros a fio em meio ao sobe e desce daquele trânsito maluco, e no dia seguinte, com ela voltando a funcionar tão misteriosamente como parou, e eu a entregando na agência como se nada tivesse acontecido. Além de sair ileso, ainda escapei de pagar um possível conserto.

“[...] o que oferece aos teus filhos, sofridos, / dignidade ou jazigos? / [...] / Retomando as atividades do dia: / Lavar os copos / contar os corpos / e sorrir. / A essa morna rebeldia”
♫ DOIDO, Criolo

Mas a Sra. Morte não tardaria em bater de novo em minha porta. Dias depois, já em Jaipur, a cidade rosa (e fétida), um motociclista possivelmente desmiolado me atingiu em plena calçada. Senti o ventinho, aquele "silêncio que precede o esporro", aquele segundo que pode durar uma eternidade, onde um dos meus braços instintivamente tentou parar o veículo, enquanto com o outro eu me autoprotegia. Estátua! Troca de olhares. Ainda estou nesse mesmo planeta. Fui atingido, atropelado. Cá estou. Nenhum arranhão para contar a história.

Meses depois, já havia voltado para esse país que se chama Brasil, num lugar chamado 'Praça da Bíblia', em Foz do Iguaçu, recebo uma nova abordagem, dessa vez de uma pessoa revelando meu passado, sem nunca ter me visto antes, ou sabido nada da minha vida. São os paranauês do Paraná, minha gente. Diferente do futuro, o passado para mim é ok. A senhora me disse algumas frases, dentre elas, para ao mesmo tempo manter a privacidade e não comprometer o sentido, destaco apenas algumas: "Você estava andando por becos e vielas…”; “Um cartomante…”;“Livramento de morte...". A ficha caiu. Eu havia nascido de novo. De novo. E de novo.

A cidade onde tem presunto no almoço

Nova Délhi, Índia, 3.502 km ✈ até Pequim

Existem várias maneiras de chegar em Varanasi, porém apenas duas de sair: Vivo ou morto. Apesar de, a primeira vista, isso possa soar meio óbvio, a segunda maneira tem uma conotação toda especial nessa cidade sagrada. Como já expliquei esses escritos não tem como objetivo ser um guia de viagens, ou ainda um guia de como não viajar e sim um convite à reflexão: Esse tipo de material meramente informativo frequentemente fica desatualizado e vira almoço de traça. Assim, para tentar pintar esse pano de fundo, vou trazer os detalhes que mais importam para isso, os outros você acha fácil com uma rápida busca na internet. E para mim, o mais importante de todos eles é a peculiaridade na qual muitos indianos tratam o assunto ‘morrer’. As águas de um rio caminham para a foz, assim como as ações da vida para o seu final. Talvez você deva estar pensando: Que macabro! Macabro seria passar a vida toda sem ao menos pensar sobre isso e deixar de tirar proveito dessas conclusões.

Varanasi é um velório 24 horas. Sim, é essa mesma, aquela cidade indiana que você viu na novela, onde tem um rio de cor marrom-glacê-real e as pessoas fazem de tudo nele, inclusive morrer e tomar banho, compartilhando a mesma água. Eu também tomei banho no rio, mas não foi lá, foi mais perto da nascente, em Rishikesh, só para constar. É tão diferente quanto tomar banho nas águas do rio Tietê, na cidade de São Paulo, ou na sua nascente, em Salesópolis. Agora, imagine que você saiu de uma viagem de ônibus onde a corja rodoviária a cordial equipe de bordo resolve cobrar a mais de todos os passageiros pelos serviços que, teoricamente, estavam incluídos na passagem. Às vezes saio com a impressão que é a própria estrada que faz com que muitos dos motoristas e funcionários das empresas de ônibus sejam tão arrogantes e inescrupulosos. Até então achava que isso era típico apenas das quadrilhas empresas brasileiras, mas seria este um fenômeno mundial? É claro que na ocasião não deixei essa trambicagem passar batida. Ter que dar um “agrado” para o motorista bigodudo para poder guardar minha mala no bagageiro, ainda que um valor insignificante devido a desvalorização da moeda deles, está definitivamente fora dos meus preceitos e do padrão de justiça que acredito e persigo; O que me fez brigar (verbal e gestualmente) e tanto pelos meus direitos.

— “ELE VAI QUEBRAR O ÔNIBUUSS!!!!”, berrou o capanga ajudante ao mafioso motorista, se referindo a mim. Imediatamente vossa excelência de bigodes ordenou que seu lacaio me desse minha poltrona, que era mais cara, que estava sendo ocupada por um comparsa. Foi assim que ganhei aquela discussão sobre não estar mais disponível o assento leito que comprei em um maravilhoso e caríssimo (para os padrões deles) ônibus com WiFi, conforto total e perfumado com crisântemos do vale que haviam me prometido. É claro que eu não faria isso, pelo contrário, mais alguns minutos e eu já ia me recolher à minha insignificância. Mas, de modo geral e sob o nosso ponto de vista, os asiáticos são tão franzinos, que eu com meus 1.80 metro de altura devo ter parecido um brutamontes cachorro-louco enquanto eles provavam da minha fúria. Assim, percebo que tem situações que atuar é mais importante do que agir, e parecer é melhor do que ser. É a vida imitando a arte.

Ao sair de Rishikesh a Nova Delhi em meio a um festival, tinha duas opções: encarar uma viagem de uma noite inteira em um ônibus velho como esse, pagando cerca de 15 reais, ou passar a noite ao relento. Escolhi a primeira. Acho que minha antitetânica estava em dia.

Daí, você passa um bocado de horas em um busão e desembarca em um labirinto bizarro em que a poluição é tão suprema que você quase consegue tocá-la, a fumaça tem vida própria e teima em se incorporar ao cheiro das fezes, compondo aquele “aroma do campo”. Bem vindo a Varanasi, honey baby. Quase não sobra espaço para você sequer andar nas vielas, pois os centímetros são severamente disputados entre pessoas, vacas, tuk-tuks, riquixás, lixo e cortejos fûnebres ambulantes. Imagine almoçar em um restaurante em um lugar cujo a vigilância sanitária ainda não foi inventada, eu acho. Enquanto a comida rebola em sua língua devido a fortíssima pimenta (nesse caso, até bem útil, nem os micróbios aguentam), você percebe que o presunto não está no seu prato, mas desfilando bem ao seu lado, sendo carregado em direção as cerimônias no rio Ganges. Ao olhar para trás, dezenas deles, em meio às ruas. São tantos que existe até um código de cores. O interessante, que em meio a tamanha desorganização, você não precisa de um GPS para chegar até o rio, basta seguir os defuntos, tomando os devidos cuidados para não virar um deles antes da hora.

A minha situação era muito parecida com essa aí que você imaginou, porém eu pensei melhor antes de almoçar em qualquer lugar e comi umas bananas e um combo de pão com ovo apimentado no McDonald’s, lanche tão mal-feito ao ponto de você conseguir tirar a pimenta com os dedos, o que acabava ficando bom para mim. (Fica aí a dica, na Índia, você pode sobreviver a base de McEgg + água vegetariana). Eu estava sem fome, relacionado também a um tratamento médico que precisei/optei fazer em Delhi, já que para nós brasileiros, a saúde na Índia é super acessível e de qualidade. Passei o dia assim, afinal, para encarar aquilo era preciso ter estômago. Por falar em Delhi, agora veio à memória uma conversa que tive com um rapaz indiano cujo nome é difícil de lembrar, hospedado no mesmo hostel que eu, em meios aos dias que tirei para descansar do estilo de vida europeu. Ele me mostrou algo que me chocou de imediato, mas veio a me transmitir um ensinamento profundo posteriormente: O cara tem uma lista de coisas que ele faria, ou ao menos tentaria fazer, caso ele percebesse que o fim estava se aproximando. Uma lista como essa, que lembro dos sentidos, e estou tentando reconstruir as respostas com maior exatidão possível:

Se tivesse apenas mais...

O rapaz indiano com nome difícil faria o seguinte:

Suas respostas.

Ei, psiu, você mesmo!

...cinco minutos de vida

Passaria o tempo com pai e a mãe dele

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____________________________

____________________________

...quinze minutos de vida

Passaria o tempo com as garotas que ele gosta (isso mesmo; plural, três)

____________________________

____________________________

____________________________

...um dia de vida

Tiraria o dia para se divertir

____________________________

____________________________

____________________________

...uma semana de vida

Iria pensar melhor sobre o último dia

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____________________________

____________________________

...um mês de vida

Ajudaria a mãe dele com as coisas que faltam da casa (de maneira geral)

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____________________________

____________________________

...um ano de vida

Trabalharia para dar a família uma condição melhor

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____________________________

____________________________

agora é com você: _______________ de vida

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Você caro leitor, queira fazer a gentileza para si mesmo de preencher a tabela acima. Não tem problema, eu vou ficar aqui esperando o tempo que for necessário. Papel e caneta na mão e zero procrastinação! Vai ser útil daqui a dois parágrafos. E se tem um povinho que se prepara para o final de tudo é esse indiano, hein? Alguns vão para Varanasi pois acreditam que morrer lá é melhor, se forem cremados e tiverem suas cinzas jogadas no rio, não precisam mais viver de novo. E as melhores fontes relatam que nem sempre eles tem o dinheiro necessário para comprar a quantidade de madeira perfumada para fazer a cremação completa, ainda que o valor seja pequeno pra gente. Com isso, volta e meia sobram alguns órgãos e pedaços de cadáver que vão direto para as águas. Claro, a mesma água que eles usam para… Argh!!! Quer um gole? Com tamanho desejo, parece até que eles nascem para morrer. Ops… Quem não?

Eu gostaria de fechar essa história com as palavras mais fidedignas da expressão dos meus sentimentos do que se passou em seguida, mas creio que nenhuma palavra vai ser digna o bastante. Talvez se eu lubrificar um pouco esse teclado com as lágrimas de tristeza vívida que vem só de lembrar, ajude um pouco. Resolvi seguir os caixões, e acabei no meio da cerimônia de cremação. O lugar onde as brasas consomem as histórias. Foi um sentimento espiritual pesado em meio a agouros perturbadores. Há quem tenha ido lá e tenha se sentido bem até, mas eu não sou uma dessas pessoas, e acho que você também não. É uma máquina de converter corpos em cinzas, de transformar sonhos não realizados em carvão. E aquela atmosfera não é nauseante apenas por causa dos funerais, embora o homem não foi feito para lidar com essas perdas, o que as torna difícil de aceitar. Apesar de ser uma despedida, me parece que não é tão doloroso para eles, do que para a maioria dos orientais, afinal é só uma questão de tempo e todo mundo se encontra. Mas parece existir algo que escraviza aquelas pessoas e a subjugam aquela condição. Não estou falando apenas da melancolia derradeira, mas de viver uma vida inteira paupérrima, miserável, trabalhando ferozmente a ponto de corroer o próprio corpo e mente, como algumas gotas de um bom ácido corroem uma barra de ferro. Vender os seus dias, e capitalizar o seu sangue, em troca daquele destino: Ser devorado pelas bactérias, nas águas do rio Ganges. Por isso, me tornou compreensível a infelicidade de alguns: O valor de suas vidas deixou de estar em viver, e sim nos acessórios do modus vivendi. E a vida não acaba nessa morte física, nem pra eles, nem para mim. Para eles, ela começa de novo, e para mim, ela só não acaba; O homem é um ser eterno, e tudo que ele fizer nessa vida vai ser nada se comparado ao infinito. E, embora eu creia de uma maneira genuína, até mesmo o ceticismo, uma vez mais vai concordar comigo. Vejamos qual era mesmo a aposta de Blaise Pascal:

“– se você acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho infinito;
– se você acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda finita;
– se você não acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho finito;
– se você não acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda infinita”

Isso é assunto para você discutir com o Pascal… espera aí… ele já morreu tem uns trezentos anos, não é?

Eu já fiz o meu dever de casa. Essa soma de experiências me fez crescer bastante, e por isso faço questão de compartilhar contigo. Lembra da tabela que você preencheu? Hoje, orgulhosamente posso dizer que estou cumprindo o que escrevi na minha. Isso me garante que a minha vida não está sendo em vão, estou feliz por ter existido[10]. Se essas minhas quase-mortes estivessem mesmo acontecido naquelas circunstâncias, eu teria vivido toda uma vida, para nada. Teria desperdiçado minha juventude estudando e trabalhando no nível hardcore, para depois, só depois, quando ficar bem mais velho, pensar em aproveitar, e esse dia nunca iria chegar. Sim, a troco de nada.

“A brasa e a pele ardiam / Como o fogo dos novos tempos / [...] / Aos jornais / Eu deixo meu sangue, como capital / E às famílias, um punhal / à corte eu deixo um sinal.”
♫ RAPPA, O

Por isso, meu caro leitor/minha cara leitora, eu lhe deixo um aviso. Você não faz a mínima ideia de quantos dias mais você vai ficar por aqui. O amanhã vai existir? Estaria você fazendo a coisa certa? Se, por um acaso, você não estiver fazendo de sua vida o que você escreveu na tabela  — aquilo que realmente é importante, que veio do mais profundo do seu ser — provavelmente tem algo de errado, e você está sendo oficialmente notificado disso, não adianta correr. Pronto. Missão cumprida!

O novo Padre Tereso de Calcutá

Calcutá, Índia, 3.270 km ✈ até Pequim

Spoiler póstumo: Ufa, eu não morri no final. Mas demorei para acreditar.

— “Número um ou número dois?”

Assim é a entrada de um banheiro público na Índia, e o preço que você vai pagar para usá-lo pode depender dessa resposta, já que o número dois é mais caro, embora ninguém fique te fiscalizando para saber o que você realmente fez lá dentro.

Essa é a Índia, um país em que defecar em uma privada pode ser considerado um luxo para alguns, já o fazer nas ruas normal: No começo eu até achei nojento passar de trem pelo Bihar — o estado indiano famoso por sua pobreza até mesmo entre os indianos, como se fosse uma Índia da Índia — e ver as pessoas fazendo todo tipo dessas coisas, que ninguém pode fazer por eles mesmos, nos trilhos, sem nem se preocupar, viradas para as janelas do meu trem. Até que constatei que nos banheiros do próprio não há qualquer tratamento, os dejetos vão direto pra linha férrea, e fez todo sentido. Com licença, isso me traz a cabeça uns mitos maléficos que permeiam as cabeças das pessoas, e faço questão de exorcizar-los agora, se você me permite: Assim como é corretíssimo afirmar que no Brasil se fala espanhol; A África é o único país continente onde a pobreza reina, e 100 % das pessoas lá, e só lá, são absolutamente pobres; E os orientais comem cachorros e escorpiões todos os dias por puro fascínio. Vade retro santa ignorância! Tudo bem, já ouvi histórias, mas não vi. Na maioria das vezes isso acontece mesmo por aliar sobrevivência a criatividade, quando a fome surge. Mas não na mesma situação em que comemos lasanha de supermercado, é por precisar mesmo. Alguns necessitam até mesmo para fazer suas necessidades, quem dirá para comer. Que louco.

Esse dia em Calcutá seria minhas últimas horas naquele país, onde toda pobreza é pouca. E foi também o choque cultural que estava faltando. Me dói muito o coração olhar para os becos imundos e não saber distinguir bem o que são sacos de lixo e o que são pessoas deitadas no chão sujo. A população humana de rua se funde e se confunde com a de ratos e baratas. Contudo, ainda existe uma outra face nisso aí. Chame como quiser, pelo nome local hindi de ‘Jugaard’ (algo como improviso, jeitinho; Arriscando um pouco, gambiarra, mas sem tradução exata) ou pelo nome mais corporativo e pomposo de ‘Inovação Frugal’. Só aprende a fazer puxadinho quem sabe um que é um barraco. Só lembra que é possível fazer miojo no chuveiro elétrico e café com ferro de passar quem já viveu sem ter eletrodomésticos .Só sabe o que é ter que colocar sacolas plásticas sobres os sapatos quem já viveu em lugares sem saneamento. O sofrimento é um professor carrasco, mas que ensina. Nesse ambiente calamitoso os calcutenses inventaram maneiras de sobreviver.

“Não tenho caviar, lagosta, nem camarão / Mas nunca faltou café, pão, arroz, nem feijão / [… ] / Um cobertor pra aquecer, uma cama pra deitar / Então pra que pensar no tablet que eu não posso comprar?”
♫ THIAGÃO / GUETO, Kamikazes do

Existem mil diferenças e semelhanças entre aquela gente e a nossa gente dos dias atuais, mas vou deixar para você optar quem é que vive de maneira mais feliz e saudável. Eles não tem dinheiro para o básico, nós ganhamos mais do que precisamos a princípio, mas essa geração propositalmente obesa e consumista escolhe almoçar um macarrão parafuso com carne moída fusilli de sêmola nobre ítalo-americana integral acompanhada de proteína bovina angus orgânica de R$ 42 e comprar pagando altos juros no carnê das ‘Lojas Bagazine Mahia’. Ambos os governos não são exemplos de boa administração e burocracia. Eles podem fazer de tudo por um prato de comida, mas lá não tem assalto. Nós queremos ter o smartphone que acabou de sair, às vezes sem condições de comprar, ainda que o Nokia do jogo da cobrinha seja suficiente para que possamos nos comunicar. Nenhum dos dois povos têm o hábito de buscar ser autodidata. Reclamamos da poeira que penetra em nossas casas e nos faz ter que varrer, o que é ingrato, pois temos tetos. Já muitos deles improvisam uma “cabana” amarrando lonas em meios as árvores e dormem com suas famílias amontoadas pelo chão. Eu acho que eles não deveriam se conformar, mas não consigo ouvir suas vozes: Reclamam de menos?

Nem todos nós temos tempo o suficiente, sobretudo usamos o trabalho como desculpa. Esquecemos que no nosso meio existem pessoas que já tem dinheiro/expectativa profissional suficiente para viver até o último minuto, mas não tem a coragem de parar de roer o osso, continuam a galgar passos cada vez mais altos no cruel mercado de trabalho, talvez por medo ou ganância, não sei. E isso, em particular, eu falo por mim, já fiquei muito tempo nessa. Já por lá, eles tem bastante tempo sobrando, até, pude observar uma mãe em sua “casa” (entre aspas) catando piolho dos filhos: o fato é que os dois continuam na mesma. Nós não medimos esforços para sustentar o status. Eles querem sobreviver, e são vorazes ao extremo nessa luta. Nós somos muitos podres de rico, a pobreza deles se confunde a podridão das ruas. Lhe peço que, caso, assim, por mera coincidência, a sua vida seja um pouquinho melhor que a deles, você pense duas vezes antes de a espraguejar, pelo menos, e talvez gastar melhor essa energia com outros gestos, como o de mudar a realidade daqueles que precisam. A escolha é só sua. Você decide o final.

Com tudo isso em mente, arrisco a dizer que o próximo Padre Tereso não vai ser aquele que vai dar uns trocados para o mendigo mais próximo, levar um quilo de alimento não perecível exceto sal, farinha ou fubá (Aff…) ou ainda ligar para 0300-555-777-0015 para doar 15 reais em um programa de auditório. Vai ser aquele que reunir criatividade, visão de longo alcance e capacidade de resolver problemas complexos inovando, que pode tirar um ‘Todo’ do meio do nada. TudoIssoJuntoAoMesmoTempo.

Querida Índia, passar um mês percorrendo você já foi o bastante para me saturar. É só isso. Não tem mais jeito. Acabou. Boa sorte. Bom dia, Tailândia!

Veja as lições que trouxe da Índia

Desta vez, a maioria das lições estão implícitas no texto, mas ainda é possível destacar algumas coisas.


“Os [índios] ianomâmis, [...], dedicavam pouco mais de três horas diárias às tarefas relacionadas à produção; os
guayakis, do Paraguai, cerca de cinco horas, mas não todos os dias; e os kungs, do deserto do Kalahari, no sul da África, em média quatro horas por dia.”


Por todo o planeta, as vozes da história falam, é tudo uma questão de ouvir e interpretar. A galera do arco-e-flecha sabe viver. Mais importante do que trabalhar, é avaliar se o montante trabalhado faz sentido. Se dorme oito horas por dia, se trabalha mais oito, o restante é dedicado a tarefas pessoas e domésticas, o que sobra é engolido pelo cansaço. Então quando é que se vive? O que nós estamos fazendo? Vivendo ou sobrevivendo?


V - Os Do’s, Don'ts & Donuts de uma viagem

Coisas a fazer, a não fazer, e rosquinhas açucaradas

Esta é uma ocasião muito especial. Estamos nos aproximando de Pequim, o final da nossa viagem, porém ainda existem várias outras lições úteis que aprendi, antes de chegar lá, igualmente importantes, mas por várias razões, como dispersão de tempo e espaço geográfico e o desencadear dos fatos não se encaixam em um formato de narrativa tradicional. Também gostaria de compartilhar minhas impressões sobre os destinos, para que possa, talvez servir de inspiração para você.

Sendo assim, com sua licença, vou parafrasear aqui uns das formas asiáticas de passar informações de maneira concisa. As listas de Do’s (Faça)  e Don'ts (Não faça). Você pode vê-las com frequência em instruções de viagens e materiais de recomendação. Os Donuts de hoje são por minha conta.

Vejamos:

Combinados assim?

O leão na savana

Cidade do cabo, África do Sul, 12.970 km ✈ até Pequim

Ahh… Senta que lá vem mais uma daquelas histórias em tom televisivo, narrando as aventuras eletrizantes de um viajante do barulho aprontando altas confusões em um zoológico africano, não é?

Não. Estive na África do Sul e não vi leões. Ao menos, não os de quatro patas. Também não fui adentro de nenhuma savana literalmente falando, mas sim de uma selva de pedras cuja violência rivaliza. Cape Town, a Cidade do cabo, chega, de certa forma, a parecer o Rio de Janeiro da África, guardadas as devidas proporções. Lá, o dia-a-dia das pessoas começa e termina muito mais cedo. Depois do escurecer, fica difícil ver uma só alma penada nas ruas. O motivo disso? Medo. Talvez valha mais a pena chamar um táxi para ir ali na esquina a noite, do que correr o risco. E o motivo do motivo? Talvez, o abismo social que o povo sul-africano enfrenta.

África do Sul

Amiga do bolso:
▰▰▰▰▱

Diversão:

▰▰▰▰▰

Experiências:

▰▰▰▰▱

Voltaria?
Claro!

Do’s: Entender o transporte público caso esteja sozinho, e perceber que ele algumas vezes não existe; Usar transporte privado se necessário, para maior conforto.

Don’ts: Andar despreocupado com a segurança; Ficar paranóico.

Donuts: Dobrar o Cabo da Boa Esperança, como nas aulas de história; Ver os pinguins. Não são os de Madagascar, mas está valendo!


Se um dia tiver que passar por uma situação de risco urbano como essa, a melhor forma de evitar um roubo/assalto é ser menos roubável/assaltável. Vamos lembrar da metáfora do leão na savana. O predador estuda suas presas, e procura atacar as que aparentam vulnerabilidades mais fáceis. Essa é a mente do vilão, se colocar dentro dela é uma das formas de prever um ataque. Seja onde for, em uma floresta, na cidade grande, no Brasil, na África; A forma de andar, a percepção do ambiente e capacidade de gerir riscos pode determinar se você vai ser vítima de violência ou não.


Namíbia

Amiga do bolso:
▰▰▰▰▱

Diversão:

▰▰▰▰▱

Experiências:

▰▰▰▱▱

Voltaria?
Um dia, e mais precavido.

Do’s: Aprenda a pronunciar Windhoek: Vínduque. Alugue um carro e explore cada canto desse país. Leve pertences pessoais reservas

Don’ts: Não vá sem saber dirigir, ou sem ter a companhia de alguém que sabe. Não esqueça de trocar os dólares namibianos por rands sul africanos ao deixar o país, eles têm o mesmo valor e melhor aceitação.

Donuts: Atravesse a fronteira e vá até Victoria Falls. Uma visita ao Trópico de Capricórnio; Ainda que uma informação um tanto simbólica, me emociona saber que se pegasse um navio em linha reta iria chegar em Ubatuba ou até os confins da terra.

A chegada a Namíbia foi um pouco diferente. Teve um cara que “perdeu” seus óculos dentro do avião. E não foi um “perdeu” qualquer, foi um “perdeu playboy”. Esse cara sou eu, num vôo com destino a Angola. E esse que vos escreve chegou na Namíbia sem enxergar uma placa sequer, a ponto de ter que usar o zoom da câmera digital para se orientar. Quando eu fui almoçar na praça de alimentação de um shopping africano o cenário se cabalizou. As refeições eram todas servidas com talheres de plástico, à prova de tentativas de se surrupiar. Meus óculos eram de grau, mas não foi um impedimento. Portanto, muito cuidado: Estão vendendo por aí óculos sem lentes vindo da África. Não compre. É armação. Ba Dum Tss!

E, para variar, a situação me mostrou que eu tinha muito que aprender: O meu primeiro exame de vista fora do Brasil me resultou em um óculos com grau errado, talvez mea-culpa por eu não saber soletrar corretamente em inglês. Um detalhe tão pequeno de nós dois é que eu deveria ter um par de óculos reserva para não passar por isso, assim como cordinhas oculares estilo Tio Bill. “São coisas muito grandes pra esquecer.” Deveria também ter aprendido antes como guiar meu próprio calhambeque,  (♫) para não ficar ‘ilhado’ devido as mazelas do transporte público da terra de onde se ouve histórias de pessoas que caminharam distâncias quilométricas a pé para ir trabalhar por falta dele. Passaria tudo de novo? Com certeza. Foram tantas emoções...

O nomadismo digital como saída

Bangkok, Tailândia, 3.300 km ✈ até Pequim

Acordar cedo. Banho gelado. Trânsito, muito trânsito. Ônibus/trem/metrô lotado. Bater cartão. Aturar clientes, fornecedores, patrões chatos ou funcionários teimosos. Horário de almoço. Segundo round. Horas extras. Mais trânsito. Chegar em casa triturado de cansaço, dormir, e começar tudo de novo. Nos finais de semana tem happy hour. E, depois de anos pagando o INSS — que sempre está a disposição para receber seu dinheiro, mas vá precisar dele para ver como que é — elas se aposentam com um salário medíocre. Isto é, se não acabarem com a previdência até lá. Assim se resume a vida de muitas pessoas, mas a sua não precisa ser assim. Você pode continuar tendo a sua happy hora sexta a noite, ou optar por uma happy life.

Tailândia

Amiga do bolso:
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Diversão:

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Experiências:

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Voltaria?
Não queria nem ir embora

Do’s: Percorrer esse país de norte a sul, especialmente de trem, é uma experiência magnífica. O contato com aquele povo simpático e feliz me fez lembrar que a humanidade ainda não está totalmente perdida. Visite a tranquila ilha artificial Bang Kachao, um respiro verde em meio a massa urbana de Bangkok.

Don’ts: Não viaje internamente sem conferir as condições climáticas, pois tanto a chuva, quanto o calorão podem estragar a sua festa; Quando precisar sair em Bangkok, evite andar de carro, pois as avenidas são congestionadas; Tome a vacina da febre amarela antes de viajar,  com antecedência.

Donuts: Viva intensamente cada segundo por lá.

Se esse impulso pela liberdade correr em suas veias, você precisa conhecer a Tailândia. Se não corre, claro, você precisa conhecer do mesmo jeito: é um ótimo destino. Mas, aqueles que querem e podem trabalhar desplugados, sobretudo na economia criativa, devem olhar com muito carinho para lá. Seja na metropolitana capital Bangkok, na pequena e interessante Chiang Mai, cheia de espaços de coworking e pessoas interessadas, ou em uma ilha paradisíaca que parece coisa de cinema, você fatalmente pode ser tentado a ficar por lá, enquanto trabalha em seus projetos. A facilidade de encontrar um bom cantinho para chamar de seu; segurança e tranquilidade ao andar pelas ruas e a liberalidade de visto tem atraído muita gente para lá. Ao chegar pelo aeroporto internacional, a gentil funcionária do serviço de saúde me apontou para uma das várias plaquinhas escritas em português: “Que dia voce deixou o brazil” (sic). Surpreso, perguntei se estavam chegando muitos brasileiros por lá, ela com sua vozinha afinada, respondeu, uns 300 por dia. Bem que podia ser, 301, 302, 303, se mais gente tivesse coragem de mudar a sua própria realidade… Partiu Tailândia?


Fronteiras elásticas

Rio Branco, AC, 16.672 km ✈ até Pequim

Nós brasileiros, costumamos gostamos de dar uma esticadinha alí, e outra acolá, não acha? Nós temos alguns ditados como "Coração de mãe, sempre cabe mais um" e "Onde cabe um soldado, cabem dois recrutas". Algumas pessoas gostam de levar isso bem a sério. Por exemplo: A melhor descrição que pude ter de Praga, capital da República Tcheca foi "A cidade que você anda um pouco, vê um prédio bonitinho, anda mais, vai vendo outros e quando percebe já andou uns dez quilômetros". Isso é bem real, caminhei um pouco mais que isso em um dia. Mas a definição brasileira de elasticidade de viagens vai muito mais além. A maioria das pessoas fala que o Brasil vai do Oiapoque ao Chuí, mas na verdade não sabe que, ainda hoje (data em que escrevo) existem alguns pontos de conflito, sobretudo com o Uruguai. Uma briga de vizinhos sobre o mourão da cerca que o cavalo derrubou domingo à tarde, só que em escala nacional. E os dois, para evitar aquele ranço em que um não empresta mais o açúcar para outro enquanto a panela está no fogo, abafam o assunto.

Acre

Amigo do bolso:
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Diversão:

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Experiências:

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Voltaria?
Apenas como local de passagem

Do’s: Viaje para lá apenas para contar a todo mundo sobre sua existência, e depois escreva um livro. Coma açaí.

Don’ts: Não se esqueça que esse estado está duas horas atrasados. Ao pegar um vôo de Brasília, você pode acabar decolando e aterrisando exatamente no mesmo horário.

Donuts: O Acre tem dois pontos de travessia de fronteira para lugares espetaculares. Duro é ter que escolher um deles.

Pois bem, para conhecer o Brasil, país que vale por um continente, por causa do seu tamanho, era preciso ir ver isso mais de perto. Esperei muito, até o dia que mais uma vez, outra companhia aérea, dessa vez aquela cor de abóbora resolveu dar uma pane em seus sistemas de precificação. Golaço!! Teria conseguido quantas passagens quisesse a preço simbólico, com destino ao Acre, ao Chuí, ao Oiapoque, se não tivesse que pôr as rédeas em um relógio de ponto, desse sistema em que não há muita diferença entre uma carteira de trabalho assinada e uma argola de domínio escravocrata na orelha. Ao menos pude aproveitar essas duas primeiras. Até a viagem que não fiz, me ensinou uma lição enorme. Além disso, era preciso um visto para atravessar para Guiana Francesa. E gastar em Euros e falar francês. E eu não sei fazer biquinho. Mas essa é a chance dos lugares esquecidos, então também não podemos deixar de citar o Suriname e a Guiana, para aumentar a salada de idiomas e culturas na América do Sul. É umas das fronteiras com o Brasil mais intransponíveis que há.


Peru

Amigo do bolso:
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Diversão:

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Experiências:

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Voltaria?
Daqui a alguns anos

Do’s: Faça atividades físicas antes de enfrentar a altitude, não é frescura de jogador de futebol, faz toda a diferença. Esqueça a preguiça em casa.

Don’ts: Não vá no carnaval, como fui. Além de chover, os peruanos vão ficar te jogando spray de espuma.

Donuts: Beba Inka Cola estupidamente gelada.

Nessa época, ao comprar uma passagem no site desta companhia, sua tela ficava irritantemente ilustrada com uma icônica fotografia clichê do destino escolhido. Assim, ao procurar uma passagem para o Rio de Janeiro, era exibido o Cristo Redentor. Para Curitiba, se via o Jardim Botânico; Já Brasília, o Planalto. Mas quando se digitava o nome da capital acreana, só aparecia um matagal árvores. Era meio que um aviso subliminar. Estive lá para comprovar: O Acre existe, e não se fala mais nisso. Mas não tem muito o que fazer. Solução? Ir para o Peru. Aprendi a fazer o possível para salvar uma viagem, inclusive transformar uma viagem em outra. Acre, eu acreditei. Ba Dum Tss ao quadrado!

Em sentido horário:

A última foi do Chuí (RS) para o Chuy (Uruguai), e fazer aquela clássica foto de "estou em dois lugares ao mesmo tempo", já que essa fronteira é tão inusitada e movediça quanto a corda de um estilingue. É nada mais, nada menos o canteiro central de uma avenida que divide um país do outro. Mais do que simbólico, é um marco sinestésico, idiomático, até mesmo enigmático. Fiquei com a sensação de que do lado de lá dessa linha imaginária é lindo, pequeno, seguro e... melancólico. O brilho do olhar daquelas pessoas estava refletindo uma tristeza atmosférica generalizada. Não é a toa que é um dos países com as maiores taxas de suicídio da América Latina.

Pude constatar esse sentimento: Fim de uma tarde fria. Fui até um quebra-mar próximo ao centro de Montevidéu. Lá tem uma torre de iluminação abandonada, de metal corroído. Acabei encontrando um jovem brasiguaio de corpo são e alma ferida, e acabamos conversando durante algumas horas. Algumas pessoas só precisam ser ouvidas e reanimadas. Mas por ouvidos profissionais. Consegui enxergar nele uma capacidade sobrecomum, porém reprimida. Ele estava a ponto de começar a abandonar seus projetos de vida, o que pode ser o primeiro passo de uma desgraça maior. Sem querer acabei falando algo mais ou menos assim:

— "Está vendo aquela torre? Se você quiser pode chegar até o topo dela!". Era para ser algo motivacional.

— "Duvido!", completei brincando.

Sem pensar muito, e com a habilidade de dar inveja a qualquer Tarzan, ele projetou mãos e pernas nos ângulos certos e começou a escalar aquela torre enferrujada. E quanto mais ele subia, mas ventava. E quanto mais ventava, mais juntava gente, pouco a pouco. A mim, só restava olhar para cima e torcer, ou carregar aquela culpa. Ele chegou no topo, tudo o que pude fazer era horizontalizar o pescoço e esperar.

O pôr do sol naquele dia estava radiante e a essência da maresia se espalhava pelo ar. Trêmulo, e para alívio geral daquela nação, ele desceu. E para variar um pouco, me deu de bandeja uma nova lição.

– "Essa subida me energizou", disse ele.

Uma situação como essa não é de se subestimar. Não se trata apenas de uma autoviolência, a vida dos que estão em volta (os sobreviventes), também é seriamente afetada  Segundo o Centro de Valorização da Vida (CVV), 90% dos suicídios podem ser evitados. — Aliás, esta instituição mantém uma linha telefônica gratuita de apoio 24 horas em todo o Brasil, através do número 188 — Assim, um suicídio não começa quando a pessoa está prestes a se jogar, e sim bem antes disso, quando ela vai perdendo a alegria e motivação de viver. É um processo que vemos se consumir muito rápido, mas que acontece bem lentamente. Isso quando vemos. Devido também ao comportamento mimetista, existem certas maneiras de se noticiar o assunto. Assim, quando alguém se joga nos trilhos do metrô, muitas das vezes só ficamos sabendo no máximo que "a circulação de trens foi interrompida devido a presença de usuário na via". Mas a próxima vítima dessa doença mundial pode estar do seu lado, onde você menos espera, e o fator diferencial entre qual caminho essa pessoa vai seguir pode ser a sua intervenção, de maneira moderada, não sectária, compreensiva e isenta de preconceitos e julgamentos, ouvindo mais do que falando.

E, com a palavra, Toquinho e Vinícius de Moraes, mostrando que o assunto não é nada recente:

O meu vizinho do lado

Se matou de solidão

Ligou o gás, o coitado

Último gás do bujão

Porque ninguém o queria

Ninguém lhe dava atenção

Porque ninguém mais lhe abria

As portas do coração

Levou com ele seu louro

E um gato de estimação

Há tanta gente sozinha

Que a gente mal adivinha

Gente sem vez para amar

Gente sem mão para dar

Gente que basta um olhar

Quase nada

Gente com os olhos no chão

Sempre pedindo perdão

Gente que a gente não vê

Porque é quase nada

Eu sempre o cumprimentava

Porque parecia bom

Um homem por trás dos óculos

Como diria Drummond

Num velho papel de embrulho

Deixou um bilhete seu

Dizendo que se matava

De cansado de viver

Embaixo assinado Alfredo

Mas ninguém sabe de quê

Letra da triste canção ‘Um homem chamado Alfredo’, escrita por Vinícius de Moraes. Obrigado por tocar no assunto, Vini. 

Viu só? É nisso que dá querer esticar uma fronteira. Você sempre acaba voltando diferente. E como eu ousei fazer isso, não demorou nada e um novo percalço se levantou, também por minha culpa. Meu vôo de volta iria sair do a aeroporto de Porto Alegre. Existiam linhas regulares de ônibus ligando Chuí a POA todos os dias da semana, exceto aos sábados a noite. E justamente, que dia da semana era? Sábado. E que horário? A noite. Assim, eu fiquei esperando alguma alma penada naquela rodoviária escura. Só havia um gato miando, até que apareceu um motorista estacionando um ônibus, que estava fora de serviço. Disse que se eu lhe desse MIL REAIS me levava até Porto Alegre. Do contrário, "pode ir pegando um hotelzinho que você não chega [mais] lá", palavras dele, com seu forte sotaque de gaúcho da fronteira. Mil pila! Eu nunca fui de acreditar naqueles que me subestimaram e diziam que eu não era capaz de fazer algo.

Uruguai

Amigo do bolso:
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Diversão:

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Experiências:

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Voltaria?
Sim, se os pesos uruguaios não fossem tão pesados

Do’s: Vá no verão e aproveite os balneários.

Don’ts: Não faça ninguém se matar, por favor. Também não coma demais, pois os pratos são caros e regados. Não estranhe quando os homens se comprimentarem com beijinhos no rosto.

Donuts: Pegue uma barca e estique até Buenos Aires, via marítima, é bem perto.

Passando mais algum tempo pegamos um táxi até a aduana do Chuy (Uruguai): Eu e um gringo que chegou lá na mesma situação. Havia uma informação duvidosa sobre possíveis outros ônibus que vinham da capital uruguaia percorrendo metade do país, já que isso pode ser feito em apenas quatro horas, passando pelas belíssimas localidades balneárias, como Punta del Este, Cabo Polonio e outras mais, esbanjado um charme oceânico. Pois bem, fiz um cálculo rápido. Das aulas de física, lembro pouca coisa além das anotações da fórmula do SorVeTe (S0 = v.t), o básico do básico, porém suficiente. Se um ônibus anda a 100 km/h, para que eu conseguisse vencer aqueles 500 quilômetros até a capital gaúcha era preciso que esse ônibus passasse alí até as 2h da manhã, ou nada feito, perderia meu vôo e seria refém de uma condenação eterna para conseguir outra passagem. Varamos madrugada dentro esperando alguma coisa acontecer naquele sombrio lugar, sob a luz da lua e o som do vento frio balançando a vegetação, comendo biscoito doce de nervoso torcendo para não precisar de um banheiro, pois o daquele lugar só se podia usar tampando o nariz. Só o som e o rastro visual dos carros que passavam aparentemente fazendo rachas (pegas) noturnos e nada mais.

Faltavam pouquíssimos minutos para a hora-limite que eu havia calculado. Xh da manhã. Deu a hora. Passou um minuto. Tensão descomunal. Alguns minutos, porém poucos. Um par de faróis de longe se aproximava. San Pablo — seu destino final — já era possível ler no seu letreiro superior. Na hora exata, e salvo pelo gongo! Fomos lá animados, comprar as passagens com o motorista: Lotado. Isso mesmo, você não leu errado. Barbaridade. Era feriadão (umas das poucas circunstâncias que o emprego deixava eu viajar). Não dava para ir nem no corredor e nem na mala. Foi embora, e ficamos lá. Mas agora, sem ônibus e sem vôo de volta. Transtorno de ansiedade generalizado! Duas horas depois, chega mais um par de faróis alí. Meu coração disparou, mas agora sem muito motivo, afinal meu vôo já era. Fomos lá ver qual era a dele: Eram as últimas duas vagas! Rapidamente ocupadas por nós. Não ia resolver meu problema, mas só de conseguir sair dali já era bem razoável; pude finalmente apagar sobre a poltrona reclinável. Até que em uma das paradas, talvez em Pelotas ou na cidade de Cristal, meu celular consegue um sinal de Wi-Fi. Eu estava exatamente duas horas atrasado, e me chega pelo ar a informação que o meu vôo iria atrasar em exatas: Duas horas... Agora sim, salvo pelo gongo! Foi ainda a ocasião perfeita para me vingar dos maus tratos que a companhia aérea cor-de-abóbora me fez em outras ocasiões: Fui lá no balcão de assistência material exigir uma compensação pelo atraso deles. MWUHAHAHAA!

Assim cheguei são e salvo no meu Rio de Janeiro. Não deu para chegar impune, mas ao menos, ileso já foi o bastante.


V de Veneza

Split, Croácia, 7.770 km ✈ até Pequim

Regras: Algumas vezes, por mais que você se esforce para fazer tudo certo,a situação se vira contra você. Outras vezes, você não está nem aí para nada, e acaba acertando sem querer querendo. São dois lados de uma mesma

moeda. Uma reclamação que ouvi de um europeu, e assinei embaixo, é que seu continente é superregulado (em oposição a Ásia), existindo definições para tudo. Algumas diretrizes não estão escritas, como a de não poder entrar sem camisa em um estabelecimento aberto em uma ilha praiana croata, aquela que se escreve Hvar, mas se fala Cvar. E você descobre na prática, quando se a descumpre, as pessoas vem te tratar como um animal, gritando, e você

devolve com grunhidos escandalosos de indignação criando uma espiral de descargas elétricas de furor, recuperando sua dignidade. (Isso aconteceu comigo? Imagina...) Outras, tem um pessoal que faz questão de escrever, como aquela de que é "proibida a entrada de pessoas estranhas no recinto". Sou estranho, ora! Devo ir embora? Falamos com estranhos todos os dias, não sorrimos quando estamos sendo filmados e contratamos malucos. E por que? Muitos reguladores mentem.


Croácia

Amiga do bolso:
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Diversão:

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Experiências:

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Voltaria?
Nem sei se posso.

Do’s: Se hospede nas ilhas para ter uma experiência completa, mas é prudente fazer as compras no continente.

Don’ts: Não vá no verão/alta temporada, pelo mesmo motivo que não é legal ir para as praias do interior de RJ/SP nos feriados prolongados. A Croácia é o quintal da Itália.

Donuts: O país é um refúgio para quem quer passar mais de três meses na Europa legalmente, já que seu processo de imigração é diferenciado.

E para lidar com esse tipo de gente que cria regras absurdas, precisamos de uma boa dose estratégia, embalada para viagem. Do inglês strategy, do italiano strategia, do grego Στρατηγική, do árabe إستراتيجية (uma colher de chá: 'iistratijia), do alemão Strategie, do croata strategija, e do húngaro — que segundo o Chico Buarque é a única língua que o diabo respeita — stratégia. Uma das melhores estratégias que conheço é de brincar com as próprias regras. E que comecem os jogos! Para início de conversa, estava viajando sozinho, até porque não encontraria alguém doido o suficiente para viajar comigo. Por outro lado, pelo caminho acabei encontrando outras companhias violadoras da retidão alheia que se esforçaram para me levar para o mal caminho.

Budapeste (Hungria)

Amiga do bolso:
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Diversão:

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Experiências:

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Voltaria?
Tendo mais tempo e dinheiro do que um simples mochileiro costuma ter.

Do’s: Explore as cidades-gêmeas caminhando e/ou usando transporte públicos, pois há muitos cantos escondidos que só se vê desta forma.

Don’ts: Não derreta no verão, e nem compre aquelas latinhas vazias de ar de Budapeste por € 10

Donuts: Dá para fazer passeio de barco pelo rio Danúbio usando só transporte público; Bem bacana.

O primeiro deles foi um saudita que conheci em viagem as cidades gêmeas de Buda e Peste, cortadas pelo rio Danúbio. Para chegar lá passei sem parar pela Tchéquia e Eslováquia, bem próximo ao ponto da tríplice fronteira com a Áustria — atravessando cidades que me pareceram ser feitas a base de xerox colorida uma da outra — usando como hotel o jeito mais barato de se viajar pela Europa. Se enganou quem pensou que é o trem: É o famoso busão noturno, onde se dorme e se viaja ao mesmo tempo pagando apenas uns eurinhos promocionais. Não sei exatamente o porquê de o clima estava como o interior de um forno, como se as nuvens estivessem se transformado em colunas de fogo. (Talvez porque fosse verão… Dããã). Ele, viajando sozinho, me perguntou:

        — “Por que você acha que estou aqui?”, me perguntou segurando uma garrafa de cerveja.

        — Para beber. Respondi sem pensar e me arrependi imediatamente; trollando o fato de que, de maneira geral, no país dele não se pode beber. “Desculpe”, emendei. Mas a bebida tinha deixado ele bem alegrinho, para meu alívio.

— “É minha lua-de-mel.”

— O quê???

— “Sim, é sério. Meu casamento durou quatro dias. No terceiro dia minha esposa simplesmente sumiu, e no dia seguinte o pai dela me telefonou.”

— Hein?

— “As passagens já estavam compradas então eu vim. Agora eu estou indo para a Croácia para ficar pelado.”, disse com toda a naturalidade, se referindo as praias croatas, lugar que eu já ia dentro de poucos dias, e ele já sabia.

— Então você saiu da Arábia Saudita só para poder ficar pelado?

— “Eu só tenho uma bunda preta [e gorda] para mostrar, e quero ver tudo. [...] Se você me esperar eu vou com você.”

Diante de tal convite eu acho que poderia dar um palpite sobre o motivo do divórcio, e fiz questão de ir para a Croácia hospedado nos confins, lá onde o vento faz a curva, e um dia antes dele partir, para garantir que não ia encontrar ele por lá.

De lá, resolvi ir para Veneza através de um aplicativo de caronas, já que ir para a Itália por via marítima sairia muito caro. Acabou sendo uma viagem meio riponga: Além do motorista, compartilhei o carro com um casal de alemães total 'Paz & Amor’. Brincadeiras com regras a parte, se há alguma coisa que gosto de ser certinho é com procedimentos imigratórios. Era o único ser não europeu naquele carro. Assim, na hora de sair da Croácia, o agente de imigração pegou meu passaporte em meio as outras carteiras de identidade européias e sequer olhou ou carimbou. A regra é clara: Sem carimbo, fica difícil provar que deixei o país, e tecnicamente estou nele até hoje. Achei que não ia ter problemas, pois metros a frente tem a fronteira com um pequeno trecho da Eslovênia, com um carimbaço a disposição. Pois bem, a imigração eslovena sequer parou o carro. Pode isso Arnaldo? Fiquei pensando enquanto admirava os restaurantes com porcos assados presos em espetos giratórios nas vitrines, um grande costume daquele pequeno país. Pouco mais de uma hora, já estaria passando por outra fronteira rumo ao Trieste, na extrema Itália, a última do dia, e poderia finalmente dar entrada no espaço Schengen (Lembrando que não se deve confundir com União Europeia ou Zona do Euro, são coisas diferentes). Porém, nesta não tinha ninguém, em absoluto, sequer para contar a história. Mais um novo belo pôr do sol parecia querer encobrir minha constatação sombria. A partir daquele momento, eu era oficialmente um imigrante ilegal acompanhado de um italiano monoglota e um casal de hippies. Haaaja coração!


Itália

Amiga do bolso:
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Diversão:

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Experiências:

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Voltaria?
Sem sombra de dúvida.

Do’s: Faça as compras no supermercado Spaars. (Dica válida para boa parte da Europa)

Don’ts: Não caia em golpes. Coisas como bilhete de metrô superfaturado e lasanha de supermercado em restaurante aconteceram comigo. Não tente visitar todas as igrejas que ouvir falar, são muitas.

Donuts: Saindo de alguns portos italianos você pode pegar uma embarcação até Malta, um pequeno e interessante país insular. Não esqueça de levar o seu par e se sentir como Jack e Rose em uma versão bambina de Titanic.

O que a gente tem são necessidade de histórias. A gente gosta do caos. Por isso, há acontecimentos que necessito contar. Os hippies em si eram pessoas legais. Ilegal mesmo era o que eles se propuseram a fazer. Topei dividir um hotel com eles, sendo que eu paguei adiantado a minha parte, e eles não. Na área comum desse escondido hotel em Veneza (na verdade em Mestre, a área “seca”, usando mais uma economia de estratégia em viagens), acabamos conhecendo um outro casal que viajava em uma van de carga adaptada, e nos animamos em ir jantar em um restaurante que tinha comida de tudo quanto é lugar do mundo, menos italiana. Éramos a confraria dos cinco. Um casal de ingleses, um casal e alemães e eu; e em terras romanas, cinco se escreve com V. V de vingança. V de Veneza. As regras que se cuidem.

Foi ali que o meu sensor de estratagemas de trambicagem apitou, pena que um pouco tarde. No restaurante, após pedir a conta, os hippies deram a entender sorrateiramente que mal tinha dinheiro para pagar e começaram a catar moedas. Até hoje não sei quem pagou. Com seus pés descalços, caminhamos juntos até a estação de trem, para ir até a Veneza propriamente dita (a parte “molhada”). Eu, como bom brasileiro, fiz uma brasileirisse: Paguei a passagem. E eles, como ótimos europeus, entraram sem pagar. Sei que não se deve ter raiva disso, e sim orgulho[11]. Lá, nos reencontramos com os ingleses, e fizemos um picnic, bem em um lugar onde tinha uns dizeres impressos em inglês claro: “This is not a place for picnics” (Este não é um lugar para piqueniques). Às vezes as pessoas nem tem a intenção de fazer algo proibido, aí veem as placas e dão as idéias. Não era o caso. Após vandalizar o cartaz, o hippie disse:

— “Nós nem estamos fazendo um piquenique, nós só estamos sentados aqui, comendo e conversando.”

O dinheiro do dia, claro, veio de uma miçanga de porta de faculdade de humanas obra de artesanato, um cordão nada umbilical vendido aos ingleses pela bagatela de € 15. Na manhã seguinte, os hippies evaporaram do hotel. Até hoje não sei se eles pagaram a conta. Por via das dúvidas, também evaporei. Nunca havia quebrado tantas regras em uma só semana. É claro, nunca tinha tido tamanha influência. É nisso que a anarquia, aplaudida por uns, acaba resultando: Uma vida no estilo rato de esgoto, sempre com medo, sempre correndo. Ao menos, aprendi que devo ser bastante seletivo com companhias[12].

Espanha

Amigo do bolso:
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Diversão:

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Experiências:

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Voltaria?
Acabei voltando por necessidade.

Do’s: Estude espanhol de verdade, se já não o fez. É um ótimo lugar para se descobrir como costumamos subestimar este idioma.

Don’ts: Não seja deportado.

Donuts: Pode parecer uma observação estranha, mas constantemente vi jardins tão bem cuidados, como se o Edward Mãos de Tesoura tivesse passado por lá.

O jogo agora virou; O caçador aqui virou caça. Ao ir (mais uma vez de ônibus), da Itália para Espanha, meu próximo destino, foi necessário percorrer a França, em meio a crise imigratória. Que mal teria? Um imigrante ilegal a mais (no caso eu) ou a menos não faria diferença, era só umas horinhas. Já no momento do embarque, o funcionário da empresa de ônibus resolveu querer encrencar comigo: "Cadê seu visto Schengen?". Que eu saiba, brasileiros não precisam de visto para turistar nas terras européias. Ele não sabia, mas nada que um pouco de truculência não resolvesse. Na Europa, as coisas funcionam assim, e pouco tempo lá eu já havia pegado o jeito. Como diria o profeta, “gentileza gera gentileza”, e “grosseria gera grosseria”, e isso tudo contamina, como um bumerangue social[13]. Julgando pelas aparências, embarcaram junto comigo um cara-de-árabe e um cara-de-africano, sendo que este último foi sentar justamente... do meu lado. Esse julgamento não foi apenas meu, mas sim oficial. Francamente, França! Em seu território, um policial parou o ônibus e pediu para ver todos os passaportes/identidades um a um. Quando chegou na vez do cara-de-árabe, ele olhou, ficou lendo, e viu que o visto dele estava vencido. Ele também. estava ilegal. “Parlez-vous français?”; DESCE; ordenou o policial, que foi com ele, tirando as bagagens dele do ônibus. Minutos depois, o policial volta, e vai direto para a minha poltrona.

— crrr…. Gelei.

E então, ele cutuca o cara-de-africano que estava do meu lado. DESCE. O ônibus partiu, mas não a tempo de me impedir de ver ele sendo revistado no posto de fiscalização. Quanto a mim, cara-de-brasileiro-pagodeiro-boladão, acidentalmente ilegal, nem mesmo conferiu minha documentação de verdade. Cadê a regra da isonomia? Racismo. A gente vê por aqui.

Quando deixei a Europa dessa vez, fiquei sem palavras. Deixei Barcelona um dia antes do previsto por falta de hospedagem pagável, ou por pura sorte/intervenção, como preferir. No dia seguinte, uma notícia bombástica: Estoura um atentado terrorista no lugar onde eu estava passeando tranquilo e calmo. Saí do país pela imigração de Madri, que tem a fama de ser a mais rigorosa de todas, no aeroporto de Bajaras. Na hora que o agente ia checar meu passaporte, passa uma madame com um cachorrinho branco, felpudo, estilo de salão, que lhe hipnotiza o olhar:

— Claft (vira página), POW!, Claft

Ele dá um carimbo todo torto e borrado, e sequer olha para mim, ou faz qualquer questionamento. Não tinha cara de quem estava ilegal, então não devia estar. Ou então era translúcido, e não tinha cara de nada. Essa é a regra; Assim é esse mundo onde as pessoas julgam[14] pelo que elas vêem e por nossas origens. Assim somos nós.

        


VI - Quem tem olho grande não entra na China… (1ª parte)

Kuala Lumpur, Malásia, 4.354 km ✈ até Pequim

Na minha infância, minha mãe sempre me dizia essa frase, e o contexto, sobretudo, eram situações como, logo depois de eu já ter abocanhado trocentas rabanadas de uma só vez nas festas de fim de ano. Ela jamais imaginava que isso podia, um dia, se concretizar. Infelizmente ela não viveu o suficiente para saber que havia um pouco de razão, e devo admitir que tinha.

Poucas semanas antes de iniciar a minha viagem pelo mundo que tinha como alvo final a China, e com passagens já compradas, fui ao consulado da República Popular da China todo serelepe para preencher os formulários e processos burocráticos (já tinha me informado sobre isso) e tirar meu visto chinês, chegando lá faltando alguns minutos para fechar. Quando chega a minha vez, a grossíssima funcionária olha para minha cara e me diz:

        — “Não é possível emitir seu visto. Você precisa fazer isto três meses antes da viagem.”

        — Mas senhora, eu vou fazer uma viagem de volta ao mundo, posso então emitir o outro tipo de visto (de duas entradas, mas caro e mais longo)?

        — “Não.”

        — Eu não vou estar mais no Brasil nessa data. Ao menos posso tentar emitir o visto de outro país?

        — “Não sei. Talvez de Hong Kong.”

        — Bom, então como faço para emitir de lá?

— “Não sei.”

A conversa segue nesse ritmo robótico animado, e termina com a atendente rabugenta dando seu sarcástico veredito final:

        — “Você pode entrar na China a pé, de ônibus, de trem, de metrô, da maneira que quiser, desde que possa comprovar [nesse período]. Nunca vi ninguém viajar dessa maneira.”

— Deve ser porque ninguém nunca conseguiu o visto, né?; disse eu, retribuindo o sarcasmo, indo embora e virando carniça para o despachante urubu que estava ouvindo o desenrolar da situação, que fez questão de me entregar seu cartão de visita, para que lhe confiasse meu passaporte e contratasse seus serviços por valores nada módicos.

Então eu pensei, “depois eu vejo isso”, saí do país sem visto e passei um bom tempo sem sequer pensar no assunto. A minha ignorância sobre o assunto se estendeu até as vésperas da viagem a Índia, onde eu descobri que precisava tirar um dias antes da viagem, e consegui fazer o processo todo online dentro de um quarto de hotel na França. E o chinês ficou mesmo pra depois.


Dando nome aos bois que foram pro brejo

3 meses depois, já na Ásia.

Deixar a Tailândia, o melhor país do mundo — título escolhido por unanimidade entre todas as pessoas que foram consultadas: no caso, somente eu mesmo — foi um processo daqueles, barra pesada. Era chegada a hora de isso acontecer. A dor do parto é grande, mas tive que partir. Estava saindo pela fronteira sul, com a Malásia, país que logo depois de vir relembrar sua existência, tratei de julgar pelo nome: Da mesma forma que, se a macumba fosse boa, deveria se chamar “Boacumba”, o país não foi nomeado “Boásia”, por que não devia prestar. Assim como o nome de sua capital: Kuala Lumpur, ou KL, para os íntimos. Não tem a ver com aquele bichinho australiano fofucho que se chama Koala, isso foi coisa da sua cabeça. O nome na bahasa melayu, ou literalmente, língua malaia (que é muitíssimo parecida com a língua indonésia) significa algo como “confluência [de água] barrenta”, o que pode deixar qualquer um com a impressão de estar viajando para um brejo. Julgar pelo nome não era uma boa idéia, ainda mais porque a decisão de ir para lá foi meio forçada: Eu devia ir para a ensolarada ilha de Penang, porém, na ocasião, choveu tão torrencialmente naquela região, que as ruas desse belo pedaço de terra oceânica ficaram debaixo d’água. Por sua vez, a decisão de ir para tal ilha foi mais forçada ainda: Foi fuçando e escavando profundamente o site da cia aérea econômica AirAsia, que descobri que a ilha existe, é habitada, é bem grandona e turística, inclusive. Arrisco a dizer que é uma espécie de Florianópolis malaia. E tem aeroporto, e ainda por cima era o ponto de partida do vôo mais barato de todos com destino até o meu alvo: Pequim, que fui capaz de encontrar.

O curioso é que esse vôo tinha uma conexão em Kuala Lumpur. Vejamos, pegar um vôo de KL para Pequim sairia, por exemplo, por 1000 dinheiros fictícios. Agora, pegar um primeiro vôo saindo de Penang com destino a KL, desembarcar no aeroporto da capital malaia, e embarcar nesse mesmo vôo para Pequim, que estava interessado inicialmente, sairiam, os dois vôos juntos, por 800 dinheiros: Comprar os dois vôos juntos era mais baratos do que comprar apenas um. Comparando com a realidade brasileira, seria como se uma mesma companhia vendesse por 500 reais um vôo de São Paulo para Manaus, e por R$ 400 um vôo de Porto Alegre para Manaus com conexão em São Paulo, no mesmo avião. Vai tentar decifrar essa lógica, nem mesmo a simpática funcionária tailandesa da AirAsia que me vendeu a passagem em Chiang Mai, soube explicar. Sendo assim, eu resolvi usar a flexibilidade ao meu favor, jogar o jogo sujo da AirAsia, e de quebra, colocar mais um destino na lista: A ilha de Penang. Se não fosse uma primeira coincidência: O período da minha viagem acabou coincidindo com a inesperada enchente. Só a primeira de várias outras que viriam pela frente.

Rapidamente, ao chegar lá (em KL), o meu julgamento nominal precoce e minhas baixas expectativas foram mais que superados. Estava eu em uma gigante capital, limpa, organizada e moderna, ainda assim com custo de vida melhor que muitas capitais brasileiras. Com seus arranha-céus imponentes, de dar torcicolo no pescoço de quem tenta observar, e a sua imbatível redes de shopping centers interconectados, mesclada aos sossegados respiros de uma área verde, o KLCC Park, e as famosas torres gêmeas da Ásia circundadas de infraestrutura urbana, e para completar, a melhor coisa para viajantes menos abastados: transporte público turístico gratuito. Passei o primeiro dia rodando aquele grande complexo, observando pequenas nuances e compilando em um mapa mental, querendo me situar, como se aquilo fosse ser útil alguma outra vez.

Estar na Malásia é um pouco estranho: É um país multicultural e multiétnico. De um certo ângulo, parecido com o nosso, mas de outro, bem diferente. É como se as panelinhas saíssem das quatro paredes da minha antiga sala de aula e atingissem proporções nacionais. Malaios, indianos e chineses dividem a mesma terra, mas nem por isso eles “se misturam com essa gentalha”. Não é raro colocar sua religião no currículo ao procurar emprego, e anúncios de aluguéis de imóveis, como estes destacados, deixam bem claro a qual a cor da pele e formato dos olhos etnia que o inquilino “ideal” deve ter. “Sim, mamãe; Gentalha, gentalhá!”

Escolhi me hospedar em um hostel próximo a estação ‘KL Sentral’ - é assim mesmo que se escreve, “tá serto?!” - pela facilidade de transporte que isso me traria: Assim que, literalmente, a maré baixasse em Penang eu poderia ir para lá ou quem sabe, dar um pulinho até Singapura. Por mera coincidência, esta também foi a escolha de um outra pessoinha também viajante — com sinais de misantropia — cujo nome se pronuncia quase igual a Amy, assim como o da cantora Amy Winehouse. Acontece que Amy é um garoto do sexo masculino, cuja mãe o condenou a ter esse nome. E ele foi com a minha cara, e em cinco minutos, magneticamente, ficamos amigos.

Quando fugir é trocar de inimigo

Eu estava ali em KL para passar o tempo, e ele veio de uma ponta da Ilha de Bornéu, a remota ‘outra parte’ da Malásia, que divide o território com um dos 17.508 pedaços (número segundo a CIA) da Indonésia e o longínquo reino de Brunei, cujo brasileiros só sabem de sua existência por um pormenor da ordem alfabética: Lembra da abertura das olimpíadas, onde aparece a delegação brasileira desfilando, repleta, com vários atletas famosos? Depois disso, vem uma delegaçãozinha meio mixuruca, com meia dúzia de atletas caminhando enquanto o Galvão Bueno ainda está tecendo seus comentários. Então, esse país aí. O Amy veio lá daquelas bandas, do interiorrr, onde tinha passado toda a sua vida. Curiosa foi a forma como ele chegou na cidade: Ele tinha um emprego em um hostel na afastada cidade de Kota Kinabalu, que ainda que lhe trouxesse insatisfação, era a sua única fonte de renda. Em suas próprias palavras, ele “acidentalmente” comprou uma passagem para cá, assim, do nada, sem querer querendo, de uma hora para outra, como que vai ali na padaria comprar um pão, e foi. Déjà vu, aquela sensação de que eu já tinha visto aquele filme. A história dele comungou com a minha (♫). O pessoal do trabalho dele sequer ficou sabendo, e ele não tinha passagem de volta, embora coragem não lhe faltasse, e essa é uma característica extraordinária. As pessoas diziam que eu era muito corajoso ao “largar tudo”, expressão que pessoalmente abomino, pois as coisas que fiz foram meticulosamente planejadas. Mas aquilo era uma real cara e coragem de dar um tiro no escuro, e eu, como caçador e apreciador de boas histórias, não podia perder essa chance de poder contar te o final, não é mesmo? Escolhi acompanhar o Amy, nesse processo de reabilitação, vindo do silvestre mundo onde a carne humana é ameaçada pelos animais, para o selvagem mundo em que os inimigos são bípedes: a cidade grande. Mas o Amy, era, digamos, resistente. Ele não se demonstrava aberto a se readaptar de forma alguma, estava até mesmo falando inglês com os locais em vez da língua local, a qual ele sabe muito bem. E esse era o novo inimigo que ele precisava enfrentar: a si próprio, em meio àquele mundo novo e hostil.

“Tentaram me mandar para reabilitação / Mas eu disse ‘não, não, não’ / Eu sei, andei mal, mas quando eu volver / Vocês vão saber, saber, saber”
♫ WINEHOUSE, Amy (Traduzido e adaptado)

Quanto mais eu conversava com aquele carinha que morava logo ali, o Amy, mais aquela história me intrigava. Ele tinha algumas coisas, e não tinha outras, e nós dois juntos tínhamos um mar de coincidências. Afinal, lhe deu um estalo em sua cabeça e ele tinha vindo para ficar, portanto, ia precisar de dinheiro, e, por consequência, de um emprego. Para início de conversa, ele havia um currículo, pela metade, com uma foto padrão espantalho. E eu aprendi a lidar o suficiente com programas de manipulação de imagens para transformá-la em uma foto 3x4 digna. Porém, quando fui tentar usar o computador do hostel para fazer isso, ele pifou. Trabalhei dois anos como técnico em informática em uma fábrica, consertando geringonças, foi fácil e até divertido arrumar mais uma. Em seguida, arrumei um lugar para que ele pudesse tirar cópias a um precinho camarada. Mas só porque eu já tinha passado em frente a esse lugar antes. Sim, nada de mais, mas um “nada de mais” no momento certo é tudo. A gente não precisa de grandes coisas para começar coisas grandes. E assim seguimos.


Menos amor, por favor

Pode até não existir amor em SP (♫), mas em KL existe. Enquanto estava passeando sozinho por aquele “labirinto místico”, pontuei algo: Pessoas querem pessoas por lá. E essas mesmas também querem coisas. Assim, enquanto fazia minha pesquisa de campo despretensiosa, observei que haviam muitos lugares que ostentavam anúncios de emprego. Só não pude observar ainda mais porque não falo a língua malaia. Num lugar onde todo mundo quer tudo, resolvi levar o Amy para dar um passeio no shopping, e ele quis, e lá ele foi querido.

Eu sei que palavras não podem descrever bem o que se passou naquelas horas: Eu, um viajante forasteiro guiando um malaio em seu próprio país. Ele parecia um peixe fora d’água, e foi preciso lhe dar uma dura para que ele cooperasse com a situação. Acho que sei porque isso acontece: Na primeira vez que desembarquei de um avião para uma terra estrangeira era como se eu tivesse me mudado para outro planeta. Mãe, pai, família, amigos? Tudo ainda existia, mas agora só no virtual. Os bípedes ao seu redor falam uma língua que você não entende, e você se torna incapaz de ler, escrever e se expressar. Do nada, você volta a ser uma criança, só que presa em um corpo de adulto. Todos começam a esperar de você coisas básicas, mas você simplesmente não sabe o que fazer. E existem dois tipos de pessoa nesse mundo: As que amam as descobertas que trazem essa situação, e as que odeiam as frustrações que isso traz. Eu fui o primeiro tipo de pessoa, e me arrisco a dizer que o Amy, o segundo.

Esse suposto ódio aí dele ele era compensado com dois outros amorecos[15]: Com cigarro e a bebida, era só love. Nada de anormal, até então. Desde que você possa pagar por isso. E era justo esse drama que se desabrochava a cada hora que passava com ele: Em teoria, quando ele “acidentalmente” comprou uma passagem aérea para trocar a vida quase campesina da ilha de Bornéu para a vida citadina de KL, ele teria dinheiro suficiente para essa jornada de transição. Na prática, ele não tinha o honey money nem para as necessidades mais básicas, quem dirá para suas paixonites. Assim, nesse ele descobriu que para comprar cigarros esquisitamente abaixo do preço de mercado tinha que se dirigir ao periculoso “market popular” no subdistrito de Chow Kit.

Aquele lugar era realmente barra pesada, e tudo o que eu menos queria era ser vitimizado por um meliante de olhos puxados portando uma peixeira. As minhas impressões sobre lá e seus riscos inerentes se confirmaram ainda mais agora, ao fazer a minha pesquisa prévia para escrever: Descobri que em meio aos seus becos, quartinhos e cubículos funciona uma das maiores casas da luz vermelha kuala lumpurianas, e era, claro, uma tragédia[16] anunciada. Já as bebidas alcóolicas, “oficialmente” ele não poderia comprar “legalmente”, por ser muçulmano, fato que acredito que deva encarecer e muito as mesmas. Não teve jeito: Não era legal ficar ali esperando o transporte gratuito Go KL City Bus, então comprei um token (ficha) para que ele voltasse comigo para a estação ‘Sentral’ de monorail (monotrilho). Ahh, a Ásia é uma terra de contrastes incríveis: Um trenzinho tão vanguardista que chega lembrar aquele famoso do ‘Walt Disney World’ funcionando com arcaicas fichas como se fosse um antigo orelhão da esquina telefone público pré-cambriano. E o contraste se choca até com si próprio: Por dentro, as fichas são eletrônicas e o trenzinho até que é bonitinho, mas bem ordinário. Quantas surpresas por minuto essa parte do planeta pode nos trazer?

Com toda licença poética

É muito bom amar, mas amar as coisas certas é o que há de melhor. Um poeta diria que “amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói, e não se sente.” Eu diria que esse tipo de amor platônico — do tipo que nunca vai ser correspondido — é muito doloroso. Com sua licença, senhor Camões, preciso lhe contrariar: Quando se ama um vício e não consegue se libertar disso é como ficar preso dentro de um prédio em chamas: Tudo se arde na ponta das narinas, embaixo dos olhos. Se vê, se sente, dói, berra, sai sangue, pus, os ossos se estremecem, vão desvivendo suavemente. Mas quem está no interior do prédio nada pode fazer a não ser assistir a sua autodestruição como se fosse uma cena de clímax de um filme terror, ao menos que… Ao menos que alguém preste socorro, ou tente chamar os bombeiros. Quanto a você que está lendo, não sei a que tipo de “amor” lhe ocorreu, lhe ocorre, ou vai lhe ocorrer. Talvez, você veja outra pessoa com essa relação romântica–neurótica, e seja um codependente, um coamante compulsivo. Seu marido, namorido, mulher, gato, cachorro, papagaio, qualquer pessoa que seja alvo de sua estima. Se o afeto que seria direcionado a você está sendo direcionado a uma substância — ou se você mesmo sente que está fazendo isso — a ponto de fazer a vida desmoronar, não tenha dúvida que é hora de agir. Procure um “bombeiro”, em sentido figurado, uma ajuda externa confiável, que pode pode te ajudar a destruir essa situação antes que seja lamentavelmente tarde, antes que você venha a parar nas sarjetas de Kuala Lumpur. O recado está dado. Preparar, apontar, fogo!

A minha missão do dia era refazer com o Amy todo aquele caminho que tinha feito sozinho uns dias antes meio sem saber para quê. O que ocorreu em seguida foi, confesso, uma surpresa aliviante, estávamos passando por um quiosque no shopping que tinha um anúncio de vaga. Insisti bastante para que fosse lá colher informações e levar um currículo, e se você é um bom/boa adivinhador(a) de final de histórias, já sabe o que aconteceu. Inacreditavelmente, horas depois, conseguiu uma entrevista, na qual fiz questão de acompanhar (a uma boa distância, claro). Já saiu dela contratado, para começar na manhã seguinte. A minha sensação de alegria por ele foi impagável, e só começou a se dissipar quando um fato oculto veio à tona: Ele não tinha mais dinheiro e nem onde cair duro, e algumas medidas arriscadas já invadiam sua cabeça, como pegar dinheiro com agiotas chineses, que fatalmente poderiam agir como num filme do Jackie Chan. Para mim era o fim da linha: ajudar financeiramente naquela situação estava fora de cogitação. Dados os últimos auxílios e conselhos, peguei o próximo ônibus para a bela ilha de Penang (tirando férias das férias), ainda que quebrado por dentro. Ué, Lucas, por que você foi tão mau desse jeito?

Mau? Eu? Vejamos por outro ponto de vista: Se eu ajudasse além desse ponto, eu estaria marginalizando o carinha. Se eu lhe emprestasse algum recurso, estaria servindo de fiador, e não me faltam advertências[17] contra a isso no meu livro de sabedoria predileto. Afinal, se ele usasse todo o dinheiro para beber e fumar, quem teria que pagar seria eu. Uma vez, permiti que um amigo passasse um mês em minha casa e ele ficou uns três, e claro, apesar de aborrecido não ia colocar ele para fora, jamais. Um discórdia passada ajudou a evitar uma futura ainda maior. Ensinar a pescar é muito mais valioso do que dar o peixe.

Antes da partida, o Amy veio me agradecer: não fiz um milímetro além do que já sabia fazer. Parecia ser uma questão de propósito mesmo. As sofrências e pedreiras que enfrentei na vida estavam convergindo em benfeitorias a um estranho desconhecido, de uma história de uma incomum união com a minha, compartilhando boas porções de trajetórias de uma mesma geração. Sabe aquela sensação de dever cumprido, de que “combati o bom combate”[18] e que “guardei a fé”? Ainda que não chegue aos dedos mindinhos dos pés do contexto da frase original, é muito bom, hoje, poder sentir ainda que uma pequena partícula dela. As batalhas do passado podem ser os sustentáculos de um futuro glorioso, se você permitir. O presente é um presente. Só cabe a nós desembrulhar da maneira mais delicada. Assim como a minha história comungou com a do Amy, quero que a dele venha a comungar com a sua. Here we go! Aí vamos nós!

Adendo: Dias depois, eis que recebo um e-mail do Amy, reconstituído abaixo, que tive o prazer de poder responder no dia do meu aniversário:

De: Amy Tengku Megat <megat_amy@mail.my>

Para: Lucas R. Martins <email-do-lucas@email.com.br>

Assunto: Tem gente de Bornéu aqui!

E aí cara, como vai você? Já chegou ao Brasil?
Tudo está sob controle aqui! hehehe Eu ainda estou vivo e trabalhando também!

[...] Espero que você tenha uma grande viagem pela frente!

Neste ano meu presente chegou por e-mail.

Pobre Amy, nunca soube que o maior favor que alguém lhe fez não foi feito por mim. E a melhor coisa que eu pude fazer foi não ter feito nada.


Então, você aí, vem comigo até Pequim?

Embarque imediato para Pequim

Penang, Malásia, 4.164 km ✈ até Pequim

— “Não vá. Vá para qualquer outro lugar. Indonésia, Tailândia, mas não vá para China. Eu fui quando criança e fui presa por problemas de documentação. Você está rindo? É sério!”, foi aproximadamente o que me disse uma bela garota que conheci em Flori Penang.

Eu não tinha escolha. Faltava menos de 24 horas para minha fatídica viagem até a China e eu não tinha um visto. Aliás, estranhamente eu não estava muito preocupado com isso. A última consulta que fiz sobre tirar um visto chinês me informou que ele custaria absurdos 6000 bahts na Tailândia. (Lembra da atendente que me disse que não dava para emitir meu visto? Ela mentiu.) Para efeito comparativo, esse valor dava para almoçar e jantar em restaurantes tailandeses; e ainda tomar café-da-manhã e lanche da tarde nas onipresentes lojas de conveniência ‘7-Eleven’; tudo isso por 30 dias, e talvez sobrar uns trocados. Tudo isso por um pedaço de papel adesivo para colar no passaporte. Me recusei a pagar. Nem que eu fosse ver sol nascer quadrado do outro lado do mundo, ao menos ele iria nascer primeiro do que no Brasil. Afinal, eu tenho olho grande.

Há tantos chineses naquela ilha malaia da magia, que fizeram até mesmo um consulado por lá. Ele foi a minha última esperança inicial, até eu constatar que ainda que eu resolvesse pagar, dificilmente ia conseguir esse visto a tempo. Aquela agonia ia paulatinamente me matando, como um chafariz de preocupações. Precisava voltar ao Brasil, para ver minha família e resolver pendências financeiras. Não podia perder a passagem: Ela foi emitida gratuitamente com milhas acumuladas de outras viagens, e uma outra não encaixava no meu orçamento de ‘milhionário’. Então o que eu poderia fazer? Fim da linha.

“Todo carnaval tem seu fim / E é o fim, e é o fim. / Deixa eu brincar de ser feliz / Deixa eu pintar o meu nariz.”
♫ HERMANOS, Los

Talvez houvesse uma saída para mim. As “coincidências”, que foram o recheio dessa viagem, realmente estavam ao meu favor. Afinal, as aparências enganam, mas as coincidências não. Em meio as minhas pesquisas, acabei recebendo algumas informações desencontradas sobre uma possível exceção para entrada temporária na república Xing-Ling sem visto, desde que você atendesse uma série de requisitos burocráticos —  geralmente quem deveria saber explicar não faz ideia —, entre eles, o de estar viajando para um terceiro país, ter passaporte de uma entre algumas nacionalidades específicas, fazer conexão em um dos aeroportos autorizados em um determinado e complexo sistema de cálculo de quantidade de horas de conexão. Coincidentemente, para variar, eu atendia com precisão cirúrgica quase todos os pré-requisitos, faltando cumprir apenas o primeiro. Sem pensar muito, fui atrás de uma passagem partindo de Pequim para qualquer outro país, o que, de imediato é sempre uma fortuna. Porém, naquele dia em especial, naquele minuto, apareceu uma passagem que ainda que custasse o mesmo que o visto, era um valor pagável (e nem sei quanto seria uma “fiança” pro meu caso), mas podendo pagar no cartão e encaixando perfeitamente na minha logística de sobrevivência em aeroportos. Era tudo que precisava, e ao mesmo tempo, nem pedi. Aos trancos e barrancos deixaram eu embarcar. O avião era tão apertadinho (para os padrões ocidentais), que eu literalmente mal cabia em suas poltronas. Não me importa. A gente é do tamanho do nosso querer, e quis grande.

Invadi o espaço aéreo chinês, emoções a mil, afinal, não dava para imaginar que essa grande aventura um dia ia se realizar. Chegou o grande e esperado momento. Fui bem entrevistado pelas autoridades de imigração, mas consegui a tal permissão temporária. Agora já posso voltar a petulante atendente do consultado e ostentar meu passaporte carimbado: “Beijing no ombro” (♫) para ela. EU ACABAVA DE ENTRAR NA CHINA. Nunca tive um visto. Ponto final.


VII - ...Mas vai muito mais longe (Continuação)

Pequim, China, ✈ alvo atingido!

Como disse, minha mãe não estava nem um pouco errada, só não imaginava que ela sempre dizia iria um dia se cumprir. Seu garoto ia sair dos improváveis subúrbios do Rio de Janeiro e não ia parar lá. Não o seu olho grande, mas sua ambição, levou a um passo adiante. Eu só queria dar uma saidinha e ir ali dar uma voltinha na China, o que não parecia ser muito factível — um 'rolezim’ para Pequim — de princípio, e acabei parando mais longe, na Coréia (A do sul, ainda bem). Um milagre chinês aconteceu!

Eu demorei anos para aprender a nunca deixar as pessoas chamarem minhas ambições de olho grande ou loucura, até que chegou um ponto que comecei ao máximo evitar contá-las. Pois contar não acrescenta em nada, pelo contrário, cada vez que eu contava uma parte dos meus sonhos para alguém, era como eu recebesse uma pedrada em troca. O efeito surpresa tem sua beleza. Fazendo isso, hoje as pessoas ao seu redor podem te enxergar como uma incógnita e até te desprezar. E isso é ótimo! Ajuda a separar quem está perto de você apenas para tirar uma casquinha do seu potencial, e quem pretende te apoiar de verdade. Quanto menos esperarem de você, maior é a sua capacidade de surpreender.

Quatro é demais

Surdo, mudo, incapaz e analfabeto. Talvez você leitor(a), até possa ser um dos primeiros, mas analfabeto acho meio difícil. Mas você consegue se imaginar sendo os quatro ao mesmo tempo? Enfim, estar na China é bem assim. É uma questão de profunda humildade, inteligentemente chocante.

Logo, tudo aquilo que a gente costuma achar trivial: Ir ali, pegar um ônibus ou metrô, se torna um desafio. Encontrar um endereço se torna uma façanha faraônica. Ainda mais quando é o endereço da sua acomodação, e você está a tantas horas viajando, que nem lembra muito bem como é a sensação de ter um colchão ou desfrutar de uma refeição completa. Não esqueça que ainda tem uma mala para carregar. Me pergunte sobre o que eu achei disso tudo: Claro que não era maravilhoso, mas foi insanamente legal. Um dos grandes segredos milenares da vida é: Quando se faz o que se gosta, até o fardo mais pesado é como uma pena de um pássaro. Mas que a saudade do conforto bate no peito, bate. E isso me fez ficar muito mais grato pelas pequenas coisas dessa vida que eu chamo de minha, e você chama de sua.


Se você estiver em São Paulo, e quiser ir da Praça da República até a Liberdade, versão paulista da China, é muito fácil. É só pegar o metrô, descer na Sé, ir para a Linha 1 sentido Jabaquara, esperar anunciar a estação e pronto, chegou. Mas para chegar na minha acomodação em Pequim, tive que parar em uma LAN House até descobrir tal paradeiro, olhando “desenho por desenho”, até descobrir qual caracter do mandarin correspondia ao lugar: Já agora, pegar o trem até a estação “forno e fogão - balanço de árvore - quadradinho capenga”, (cada um enxerga o que quiser) vulgo Xuanwumen, com o cuidado de contar quatro paradas, pois uma distração e podia parar em qualquer outro lugar aleatório dentre as 370 estações distribuídas pelas 22 linhas. Depois, com igual cuidado, navegar por aquele emaranhado metroviário até a estação “mesinha enterrada - janela com cortina entreaberta”, vulgo Xisi, e se perder por entre os becos do lugar. Você pode simular essa experiência ao procurar por 西四 no mapa. Vê se não demora mais que o próximo trem. “Morou? Hahai.“


我的祝贺如果你正在读这个意味着你懂得普通话跟我来北京吗我会爱你的公司但我往前走你读一本书是非常容易得多中国即将来临我相信你会喜欢它我签了字

De brinde para você leitor(a), um caça-palavras mandarim. Que tal tentar achar a frase ‘Vem comigo até Pequim’ - ‘ 跟我来北京吗 ? Bônus para quem traduzir tudo. Boa sorte!

Ah tá bom, era muito fácil, só pesquisar no Google, você pode pensar. Que Google? Para ter um acesso a internet no aeroporto, ainda que com vários sites censurados, inclusive de busca e e-mail, era preciso escanear o passaporte em uma maquininha, para o governo saber quem é você. O mesmo para ir até a praça Tiananmen. Chocante. Mas chocante mesmo foi almoçar por lá: Como tem muita gente, os pratos eram distribuídos por senhas numéricas gritadas, e o meu conhecimento sobre os números em chinês se limita a escrever um (一), dois (二) e três (三); saber o quatro (四) já é demais. Se eu soubesse só mais isso, já ia facilitar muito chegar na estação Xisi (西四) , uma pena que não. Alguns chineses me ajudaram, mas a maioria deles só me parava na rua para dar uma risadinha fatal (rí rí rí rí rí) apontando para o meu chinelo, bastante inadequado para aquele clima, por sinal: Péss brr.. congelandooo. É por isso que não quero mais esboçar nenhuma reação quando vou a uma pastelaria e o atendente chinês me pergunta se vou querer um de cane, queso, flango ou camalão. Isso não quer dizer que eu consiga!

A Coréia cotidiana

Incheon, Coréia do Sul,  935 km ✈ após o alvo

A minha permissão temporária de entrada no mundo chim já ia vencer, eu sem visto, era a hora de colocar meu arriscado e elaborado plano em ação: Me refugiar na Coréia. Ou dava certo, ou dava. Tinha que, ao menos, passar na imigração de saída correndo contra o relógio. Se eu atrasasse um minuto se quer naquelas horas restantes que tinha para permanecer no país, com certeza estaria muito encrencado, ao mesmo tempo que precisava aproveitar cada segundo naquele mundo novo e desconhecido, interessantíssimo, e as suas nuances que me  imploravam ávidas para ser exploradas. Com toda a mestria, tive que exercer a milenar arte do equilíbrio, assim consegui passar com alguma folga. Antes chegar meia hora antecipado, do que cinco minutos atrasado. Essa é a lição que o Brasil precisa aprender, e o mundo me ensinou. Aquele carimbo no passaporte foi dourado. China, a gente se vê daqui a pouco. Prometo. Durante os próximos parágrafos — para que você leitor(a), possa separar os fatos das opiniões — vou separar o narrador do personagem. Estou apostando todas as minhas fichas em seu juízo[19] de valor, portanto não me decepcione, viu? Já contei algumas histórias como a do Amy e da Jéssica. Infelizmente, nunca tive a oportunidade de saber de verdade quem eu fui do ponto de vista deles. Assim, aviso aí: Estou me destrinchando em duas pessoas, uma que vive e outra que observa, escrevendo. Qualquer coisa que acontecer, posso dizer que “não fui eu, foi meu eu lírico”, afinal, “a culpa é minha e a ponho em quem eu quiser”.

Sabendo muito pouco sobre aquele país, Lucas desembarcou do avião. Descobrir que o nome da capital é Seul e não CU, lhe deixou em estado de choque quando criança, durante a Copa de 2002, mas ele foi entrar em coma mesmo quando descobriu que de fato existe uma rede de lojas com esse segundo nome. E nela vende gororobas alimentação mais ou menos barata, de acordo com aquele custo de vida. Assim, como um legítimo refugiado de um regime burocrático, passou sua primeira noite dormindo no aeroporto. Ele queria ter ao menos uma experiência natural na China e realmente conseguiu: A de ter o visto negado antes mesmo de dar entrada. Mas chinês do que isso, muito difícil. Sem muito o que fazer, ele acordou em um dia gelado e foi direto para o centro da capital do país. Fez uma reserva em um hostel barato, usando um site que um conhecido lhe indicou. Ele havia feito de tudo para não se perder nas ruas, como aconteceu no país anterior, e ele não tinha sequer um celular, pois o último havia sido perdido na Espanha, o penúltimo enguiçou, e outros dois foram perdidos/furtados em solo argentino e depois disso concluiu que alimentar a indústria de celulares era um gasto que não vale a pena. Um dos passos dessas reservas online é fornecer o número do seu cartão de crédito, mas isso não era um problema, pois o site era de confiança. Desta vez, ele havia anotado e aprendido tão bem os passos para localizar o endereço que nada podia dar errado, até por qual porta da estação de metrô deveria sair. Com todo esse planejamento, o resultado não podia ser diferente: Ele acertou em cheio o endereço e conseguiu chegar lá. Terceiro e penúltimo andar de um prédio antigo, não tão bem conservado. Estranhou um pouco a porta fechada, porém destrancada. “Mas é Coréia, é primeiro mundo, deve ser normal não precisar trancar as portas”, pensou o viajante. Ele havia chegado cedo, um pouco antes do horário de check-in, mas não teria nenhum problema em entrar lá para deixar a mala: Mãos a maçaneta!

Contudo, não havia ninguém por lá, o ambiente era como o de um hostel mesmo: Decoração moda jovem, móveis com layout descolado, um amplo espaço enigmático, meio sala comercial, meio apartamento, puffs e sofás de pallet, senha do WiFi a disposição, gravuras e registros nostálgicos da presença passada de outros viajantes em um quadro de avisos, sorrateiro. Espaço em conceito aberto, com um balcão central em ilha. Porém tinha algo de fantasmagórico no ar: Onde estariam as pessoas? Boo! Ninguém aparecia e respondia seus chamados. Porque tudo estava bagunçado? Aconteceu alguma coisa? Onde estou? Estas foram as dúvidas que apareciam, enquanto ele aproveitava a água quase fervente de um bebedouro do lugar para cozinhar um macarrão lámen. Além desse espaço principal, a hospedagem misteriosa e suspicaz, havia uma escada que dava acesso ao andar de cima — igualmente inabitado — banheiros e um quartinho cuja porta ele ficou com medinho achou mais prudente não abrir. Um bom tempo depois, apareceu uma pessoa. Uma mulher. Ambos os ânimos se exaltaram e as raivas interiores explodiram.  Ela abriu a porta do quartinho, e para surpresa do Lucas havia um homem dormindo lá dentro, que começou a tentar empurrar seus pertences e malas para fora, com violência e agressividade brutal. A mulher dizia que aquele espaço não era mais um hostel, e que ia chamar a polícia, [pois ele tinha invadido propriedade privada]. Já, ele, que não economiza em argumentos em discussões argumentou que a porta estava aberta, tinha pago a reserva, e ele é quem ia chamar a polícia. Em seu interior, havia a forte desconfiança que aquilo estava acontecendo por xenofobia. Impune, aquilo não podia ficar: Mas como faz para chamar a polícia na Coréia? Por telefone não tava dando muito certo:

        — “Ehhh… Hello?”, tentou dizer o viajante ao telefone.

        — “hangug jihacheol gyeongchal”, retrucou a voz. Na verdade, pouco importa se foram essas as palavras ou não. Não dava pra entender uma vírgula, igualmente.

        — “Humm… Sorry, do you speak English?

        — “Korean police igeon hangug gyeongchal-iya.

— TU TU TU (desligando o telefone)

A xenofobia naquele lugar era tão aparente, que quando ele tentava pedir informações em uma loja, lhe responderam com fazendo um gesto manual com os dedos em forma de ‘X’. Mas se tem algo que ele aprendeu na Ásia, foi insistir. Insistiu muito, pois lhe haviam acusado de um crime que não havia cometido, e ao mesmo tempo poderia estar sendo vítima de outro. Umas duas horas depois, Lucas havia conseguido levar dois policiais até o piso térreo do prédio. A confusão se desenrolou alí, por meio inclusive do serviço telefônico de tradução da Coréia. A versão dos dois que ‘habitavam’ o tal alojamento foi que aquele espaço havia sido um hostel no passado e agora teria virado um espaço para festas. Agora além disso, não havia onde ficar. Para sua cabeça, isso foi duro de engolir, era muita discriminação velada. Em outra ocasião já haviam lhe perguntado se ele era africano ou americano, só por causa da cor de sua pele, e até pérolas, como “O Brasil fica na África?”. Mas nada tinha se comparado a isso.

“Todo dia eu só penso em poder parar / Meio dia eu só penso em dizer não / Depois penso na vida pra levar / E me calo com a boca de feijão”
♫ BUARQUE, Chico

Chegou o momento do cansaço, onde até mesmo a melhor das novidades não eram páreas o bastante para recuperar aquele baque. Podiam lhe dar um passeio grátis para Gangnam, Samsung, ou até mesmo para Pynguepongue Pyongyang (capital da Coréia do Norte). Só sabia chorar, só queria um abraço, um colo de mãe até, já que a sua foi perdida para o câncer. Sem saber o que fazer, depois de tudo, teve uma última ideia: Pegar um metrô para uma estação qualquer, só para tirar aquele ambiente pesado de sua mente. Sentar em um banco, abaixar a cabeça e soltar um pranto invisível. Vir de tão longe, enfrentar a tudos e todos para passar por isso. Que derrota amarga!

<Voltando a ser eu> Não sei quanto tempo passei naquele banco, até que eu levo um cutucão no ombro esquerdo. Era um coreano de curiosidade apurada. Seu nome é Mun. “Mun, as the moon”, disse ele, apontando para a lua. Se fosse no Brasil seria Luan, tenho certeza. Queria saber o porquê de eu estar assim. Eu, em minha inocência, contei. E o que aconteceu em seguida não está no gibi. Ele tirou um dos pares de meia do seu pé e me deu. Só para constar: Eu estava de chinelo naquele frio, e as meias não tinham chulé algum, está bem? Pagou o meu jantar. Me deu instruções escritas de como se locomover, e, de certa forma, sobreviver naquele universo. Eu fiquei muito sem graça, como poucas vezes havia ficado. E tem mais: Me comprou um cachecol, e ainda me deu algum dinheiro para que eu pudesse me virar até o outro dia, que usei para comprar uns doces de feijão, que desta vez desceram muito bem, diferente daquelas latinhas de refresco de feijão de soja (acho) que ficam quase sólidas, dando a sensação de estar engolindo uma amoeba viva. Pelo menos, eu tinha que gostar de alguma coisa na Coréia.

De todas as vezes que eu ajudei mochileiros desconhecidos, não estava esperando que algum dia iria ser retribuído[20], nunca esperei fazer parte de uma corrente de solidariedade. Acha que acabou? Necas. Pagou o aluguel de um locker (armário) na estação, e, quando viu que eu não tinha mesmo onde ficar, me arrumou um lugar. Talvez aí você pense: Ahh… Então está explicado, é só estava ganhando sua confiança para lhe surrupiar depois… Ganhar minha confiança não é assim tão fácil. Ele aparentava ser um homem de negócios, disse que tinha um compromisso e sequer me deu um cartão de visita quando eu pedi, antes de ele desaparecer tal como apareceu. Ele fez questão que eu não pudesse fazer nada para lhe compensar ou saber que ele era, nem mesmo uma mensagem de ‘Muito obrigado’[21]. Mas, agora, pensando bem, é assim que tem que ser. Isso me evidenciou uma sensação que faz muito tempo que não sentia: Viver uma vida pura e simples.

O lugar que o Mon arrumou para eu ficar é uma típica jjimjilbang, uma sauna seca coreana, onde se dorme em ‘cápsulas’. Só quando cheguei lá me deparei com um quadro inusitado. Todo mundo fica nu por lá e ninguém tem vergonha de nada. Não sei o que passou por sua cabeça, mas é um ambiente que vão famílias, pais e filhos, as crianças brincam. O Mon não havia me pregado uma peça; Este é um elemento bem tradicional da cultura coreana, e respeito é que não falta. Falam que os latinos são calientes, mas talvez a nossa sociedade seja hipersexualizada. Mas uma coisa eu preciso confessar: Já é estranho ser um dos poucos negros morando no Sul do Brasil e muitas vezes o único nas salas de aula do ensino superior. Agora ter que ficar nu na frente daqueles baixinhos e miudinhos dos olhos puxados, realmente foi muito esquisito, é claro, que, eu, éééhh… digamos, estava chamando bastante atenção, mais do que gostaria. Ao menos, tinha algo para me orgulhar alí: Minha herança genética! Assim é a pureza e simplicidade coreana. Uma sociedade de pessoas puramente educadas, mas, que se não forem com a sua cara, simplesmente fazem o famigerado sinal de X com os dedos e te ignoram. Simples assim.

Veja as lições que trouxe do alvo

No fim, o que realmente importou não foi atingir o alvo, mas sim tudo que pude aprender até chegar lá.


Conclusão: Precisamos de um planeta maior

Pequim, China, ✈ de volta ao alvo!

O exílio na Coréia chegou ao fim. Minha terra tem pinheiros, e se chama Paraná. A viagem de volta aconteceu. O destino era Seul > Pequim > Roma > Rio de Janeiro, mais de 30 horas em trânsito, sobrevoando boa parte da Rússia, avançando contra as linhas de fuso horário. Não houveram maiores contratempos, a não ser o fato de a cia aérea Alitalia me obrigar a despachar meu carrinho de bagagem e depois perdê-lo. Em uma conexão, já liberto da bolha da internet chinesa, consigo receber uma mensagem através da rede social azul, de uma colega de trabalho que há muito não nos falávamos:

— “Menino, juro que acho que te vi hj num palácio em Seul, rs, era vc?” (sic)

SURREAL. Inacreditável. Você viaja 18.000 km, passa por diversas façanhas e peripécias, com coincidências cada vez mais estranhas, e no final, por o mais autêntico dos acasos, acaba reencontrando as mesmas pessoas[22] de sempre. Já imaginou se estivesse fazendo algo de errado? É por isso que eu acho que sempre vale a pena tentar ser em público a mesma pessoa que você  é quando ninguém está te vendo e vice-versa. A isso eu chamo de caráter. Ou você tem, ou não. É assim que é, e assim que tem ser.

A conclusão é que a humanidade precisa de novos planetas. ;-) Porém, enquanto isso não acontece, precisamos aproveitar e conservar o máximo esse daqui que habitamos. A vida é muito curta para ficar parado no mesmo lugar em que nascemos. Mas também é longa o suficiente para colher o que plantarmos, seja bom ou ruim. Espero que tenha se divertido assim como eu me diverti, e que grave essa mensagem na tábua do seu coração. A China é logo ali na esquina, a gente se encontra lá, algum dia.


That's my way, and I go / Esse é meu caminho, nele eu vou / Eu gosto de pensar que a luz do sol / Vai iluminar o meu amanhecer...”
♫ ROCK, Edi / JORGE, Seu


Apêndice

Diferente daquele apêndice do seu intestino, eu gostaria que essa daqui fosse útil em trazer algumas informações que podem ajudar a entender o contexto em que o texto foi escrito, sem que ele fique datado. Tudo pode estar fazendo muito sentido agora enquanto escrevo, mas é importante evitar que o tempo venha a corroer a compreensão.

Receitas do país X

Talvez algum dia você tenha parado para se perguntar sobre os viajantes ambulantes em tempo integral. Onde vivem, o que comem, como se reproduzem? As duas primeiras respostas você vai poder descobrir aqui. Eles vivem nos hostels mundo afora (até então eu já fiquei em cerca de 80 deles), e se alimentam dos melhores grudes produzidos nas cozinhas que normalmente ficam a disposição nessas formas econômicas de se hospedar.

Com o tempo e estudos, eu pude desenvolver algumas receitas, através de experiência própria e, principalmente, da observação anônima da vida dos viajantes em lugares que fazem parte do caminho até a Patagônia, no Chile. (Não vi nenhum pato lá, que decepção...) Com as condições climáticas mais extremas, é uma região do planeta que o custo de vida é bem mais caro, especialmente a conta do rango. O objetivo foi deixar as receitas genéricas o suficiente para serem feitas no país que você estiver, por isso o nome 'Receitas do país X', no meu caso, o Xile.

Pavê de chocolate

Consiga uma vasilha, de preferência de vidro, para facilitar a limpeza. Quebre o biscoito até que cada pedaço tenha, mais ou menos, o tamanho da unha do seu dedo mindinho. Misture bem misturado. Coloque no congelador, com muito cuidado para ninguém afanar. Se estiver nevando na sua viagem, pode ser uma boa ideia embalar bem e colocar do lado de fora. Sirva quando estiver próximo de ficar sólido. É como pizza, de um dia para o outro fica ainda melhor.

Como limpar: Se o chocolate grudar na vasilha, limpe com detergente e água quente.

Cuidados: Se fizer a piadinha do pá vê/pá comê, vai te dar dor de barriga.


Purê de tubérculos

Escolha seu tubérculo preferido, ou você pode ainda fazer um blend gastronômico (nome chique para mistura, pode ir decorando). Meus preferidos são: ½ batata comum + ½ batata rosa ou ⅓ batata comum + ⅓ batata doce + ⅓ inhame. Misture como quiser e como puder, são muitas as espécies de batatas ao redor do globo, e geralmente muito baratas. Hoje mesmo, enquanto escrevo, fui ao supermercado, escolhi quatro dos cinco tipos de batatas diferentes a disposição e paguei menos de dez centavos por quilo em um deles, numa promoção. Deixe os tubérculos cozinhando por aprox. 30 minutos, ou até que seja possível desmanchá-los suavemente com uma colher. Após esse ponto, coloque todos os outros ingredientes e mexa sem parar, para não grudar no fundo. Quando começar a sair “bolhas” de ar ou espirrar, está pronto, mas se achar que já está bom, não fique esperando isso acontecer.

Como limpar: Se você fez tudo certo, só vai precisar lavar a louça normalmente, com alguma força, de preferência com água aquecida.

Cuidados: O leite em caixa dura no máximo uns dois dias na geladeira, antes de estragar, se você não usar tudo. Se preferir o leite em pó, tenha em mente que se você colocar um saco com pó branco em uma mala e tentar embarcar com ela, pode acabar atraindo atenção indesejada das autoridades.


Macarrão genérico

Antes de começar, vamos relembrar do que a Tia Tetéia te ensinou no primário: A água entra em ebulição a 100 °C, no nível do mar. Isto quer dizer, que no meio de sua viagem para Machu Picchu, ao tentar preparar uma macarronada em Cusco, você estará a 3.399 metros, e lá a água vai ferver a uma temperatura menor que essa, e você não terá uma panela de pressão por perto. Sendo assim, não adianta muito tentar prever o tempo que vai levar para ficar pronto. Apenas, primeiro, deixe a água ferver. Depois disso, coloque o macarrão, deixe um tempinho inicial, depois experimente de minuto a minuto, até ficar ‘Al dente’, nem muito “borracha”, nem muito “papa”. Só depois coloque o molho ou combinado, para não queimar.

Cuidados: Caso faça uma primeira vez, e depois queira reaproveitar as sobras colocando mais temperos, procure usar um pouco de leite, ao invés de água. Você não vai querer “lavar” sua massa.

Peixe tailandês

Se a sua mãe é brasileira, provavelmente ela tira escamas e corta a cauda e cabeça dos frutos do mar antes do preparo. É melhor esquecer. Imagine que você é um pinguim de desenho animado. Pegue o peixe, faça uns furinhos, coloque os temperos líquidos, junto com os demais. Deixe uns minutos até curtir, depois coloque por três no microondas. Se preferir, pode assar na brasa, como acontece nas ruas tailandesas. Se tiver convidados, dê um nome criativo a receita. Isso ajuda a abrandar quaisquer expectativas, diminuindo a base de comparação, e pode ajudar a abrir a cabeça das pessoas para novas experiências gastronômicas. Se alguém quiser saber porquê você não esquartejou o peixe, diga que na Tailândia se faz assim, e vai soar interessante. Vai por mim.


Sopa de ervilha

Mole, mole, fácil, fácil: Corte as cebolas de qualquer maneira, dispondo de forma a preencher o fundo de uma panela (a menor possível), cobrindo com a margarina. Acenda o fogo, e deixe até que os pedaços de cebolas fiquem pálidos, morrendo de hepatite amarelados, quase transparentes. Imediatamente, coloque as ervilhas, junto com uma quantidade de água, variando se você gosta de uma sopa mais rala ou não. Coloque os cubinhos (ambos) e deixe cozinhar. Demora um pouco, mas dentro de algum tempo vai começar a cheirar. A partir desse ponto, fique de olho vivo. Sirva quando seu paladar achar que está bom, misturando com o creme de leite, para aquela explosão de sabores.

Cuidados: Se alguma coisa passar do ponto, vai queimar, portanto fique esperto e não se distraia.

Como limpar: Coloque um pouco de detergente e água, e leve a panela ao fogo, até começar a soltar. Depois, lave normalmente.


Sanduíche chiclete com banana

Não tem muito segredo: Corte as bananas em rodelas, as envolva em fatias de queijo e polvilhe ketchup. Disponha dentro de um par de fatias de pão com margarina. Se você está se perguntando cadê o chiclete, saiba que é mais ou menos com essa textura que o queijo derretido deve ficar depois que você aquecer bastante seu lanche da maneira que lhe convier. Chicleteiros, é só saborear.

Canapé do viajante

Você gosta de tirar casca de pão de fôrma? Fique à vontade. Comece picando a cenoura e as ervas, caso não tenha optado pelas versões desidratadas. O orégano não está sendo contado como erva, use ele (ou o tempero de ervas finas) para salpicar as fatias de pão, após ter passado margarina nelas. Assim, com a parte da margarina virada para cima, coloque em uma forma, e leve ao forno ou em um prato e leve ao microondas. Enquanto isso, misture rapidamente em outro recipiente, a maionese, o conteúdo da lata de peixe e os outros vegetais que você cortou, formando um creme. Depois, é só cortar os pães em pedaços menores, e usar esse creme para rechear. Nham, Nham.

Cuidados: Com as sobras, não é legal deixar comida estragar.

Citações musicais e fotográficas

Ás vezes eu gostaria que certas ocasiões pudessem ter trilhas sonoras. Afinal, quem nunca? Pois bem, só entre nós dois, ilustríssimo(a) leitor(a), podemos fazer um acordo: Toda vez que você ver o símbolo  em algum outro lugar do texto, saiba que aquele trecho foi inspirado nessa música, e a leitura pode ser muito melhor se você cantarolar, ainda que mentalmente, junto comigo. Experimente! Alguns fragmentos de letras estão destacados, e outros no meio do texto mesmo. Mas isso não será um problema para quem tem boa memória ou sabe pesquisar na internet!

Para facilitar a vida, criei uma playlist para que você possa ouvir as músicas citadas pela internet, é só usar o link http://sommos.tech/links/playlist-vem-comigo.html ou usar o QR-Code que você acabou de ver.

Quanto as fotos, a maioria delas foram de minha autoria, com algumas importantes exceções: A foto da fronteira Bélgica – Netherlands foi disponibilizada pela licença Creative Commons (By User:Jérôme - Own work, CC BY-SA 3.0,https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1564073) para o Wikimedia Commons. De forma similar, alguns desenhos vetoriais usados na capa foram disponibilizados em licenças livres. A foto principal da capa possui autor desconhecido. Houveram também algumas reproduções de divulgação, claramente identificáveis ao longo do texto, como os anúncios de imóveis na Malásia e um mapa do metrô de Pequim

.

Dinheiros, moedas e seus valores médios

Moeda

Época da viagem

Conversão aproximada

Exemplo de poder de compra

Libra esterlina

£

GPB

1º quadrimestre de 2015

1 GBP valia R$ 4,50 ~ 5,00

2 bananas por R$ 10

Boliviano

Bs.

BOB

1º quadrimestre de 2017

2 reais valiam ~ 1 BOB

Um almoço por 5 reais.

Euro


EUR

Diversas, começando a observar em 2014

1 EUR ~ 4 reais

1 viagem de metrô em Paris por R$ 7,22, em Lisboa R$ 5,50; Sem os possíveis descontos.

Dihram marroquino

Dhs
MAD

Foi preciso converter para euros, e depois para dihram, logo, ver Euro.

Em uma conta rápida, 1 EUR = 10 MAD, porém foi possível encontrar valores melhores.

Uma bermuda por R$ 30, em um Shopping em Fes

Rúpia indiana

INR

Último semestre de 2017.

1 real, 20 rúpias. reais, 100 rúpias, e assim por diante.

Os preços costumam ser tabelados. Um pacote de batatas Lays saia por R$ 1.

Baht tailandês

฿

THB

Último semestre de 2017.

1 real, 10 baths. Por praticidade, só cortar um zero.

Ônibus local sem ar condicionado: De R$ zero até ~ R$ 1. Incrível.

Ringgit Malaio

RM

MYR

Último semestre de 2017.

90 centavos de real para 1 ringgit. Por praticidade, pensar nos preços em reais, com um desconto.

Almoço modesto em praça de alimentação de rua: R$ 8.


Deus ex machina

Não entendeu? Está curioso? Vamos ver o que o dicionário Priberam diz sobre o termo:

1. [Teatro]  Numa peça de teatro, intervenção de um ente sobrenatural que, por meio de um maquinismo, baixa sobre a cena.

2. [Figurado]  Pessoa cuja influência é preponderante numa empresa ou num negócio.

Caso você ainda não tenha percebido até agora, essas citações em formato de nota de rodapé[23] foram tiradas de um livro muito antigo que me acompanhou por todas essas viagens. Tenho tentado relacionar o que está escrito nele com a minha maneira de viver. Ter interpretado ele melhor antes poderia ter me livrado de alguns problemas, mas por outro lado agora vai ser mais difícil esquecer desses aprendizados. Apesar de nós, muitas das vezes, focarmos no lado negativo, ele me livrou de muitas roubadas, e tornou isso tudo possível. Muito do que escrevi nas seções “Veja as lições que trouxe do lugar X” já estava lá escrito a muito tempo, sendo que eu só apliquei em um contexto contemporâneo, conectando as minhas experiências de vida. A saber, esse livro se chama ‘Bíblia’ e em uma de suas páginas está escrito: “Os seus ensinamentos o guiarão quando você viajar, protegerão você de noite e aconselharão de dia.” (NTLH) Seguem suas versões referenciadas e respectivas siglas:

Sigla

Versão

ARA

Almeida Revista e Atualizada

NVI

Nova Versão Internacional

NTLH

Nova Tradução na Linguagem de Hoje

NVT

Nova Versão Transformadora

Ao verdadeiro autor desse livro, meus agradecimentos:

Eu estou aqui tentando cumprir o meu chamado

Talvez nem fosse pra eu ainda estar acordado

De qualquer forma, não tenho como agradecer

A reforma que você promoveu em meu ser

Eu sou só mais um ignorante

Mas agora, só quero passar adiante

Tudo aquilo que você colocou em meu coração

Sigo em frente, nessa missão!


[1] Olá leitor antenado! Essa aqui é uma seção que estou chamando de ‘Ex Machina’. De princípio pode ser que só os fortes entendam, mas você pode se fortalecer lendo o apêndice, se precisar.

[2] Ex Machina: “[...], pois o perfeito amor afasta todo medo.” (NVT)

[3] Ex Machina: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus…” (ARA)

[4] Ex Machina: “Já fui jovem e agora sou velho, mas nunca vi o justo desamparado, nem seus filhos mendigando o pão.” (NVI)

[5] Ex Machina: “Os desejos das pessoas são como o mundo dos mortos: sempre há lugar para mais um.” (NTLH)

[6] Ex Machina: “Não é bom que o homem esteja só.” (NVI)

[7] Ex Machina: “ ‘Tudo me é permitido’, mas nem tudo convém.” (NVI)

[8] Ex Machina: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito.” (NVI)

[9] Ex Machina: “Não tratem com desprezo as profecias, mas ponham à prova todas as coisas e fiquem com o que é bom.” (NVI)

[10] Ex Machina: “Vi, portanto, que a melhor coisa a fazer é alegrar-se com seu trabalho. É isso que nos cabe na vida. Ninguém nos trará de volta para ver o que acontece depois que morremos.” (NVT)

[11] Ex Machina: “Não se preocupe com os perversos, nem tenha inveja dos que praticam o mal [...]” (NVT)

[12] Ex Machina: “Feliz é aquele que não segue o conselho dos perversos, [...] nem se junta à roda dos zombadores.” (NVT)

[13] Ex Machina: “A resposta gentil desvia o furor, ⏎ mas a palavra ríspida desperta a ira.” (NVT)

[14] Ex Machina: “Não julguem para não serem julgados” (NVT)

[15] Ex Machina: “Porque o amor ao dinheiro é raiz de todos os males; [...]” (ARA)

[16] Ex Machina: “Abismo chama abismo ao rugir das tuas cachoeiras; [...]” (NVI)

[17] Ex Machina: “É falta de juízo dar garantia pela dívida de alguém ou aceitar ser fiador de um amigo.” (NVT)

[18] Ex Machina: Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. (NVI)

[19] Ex Machina: “Não julguem, para que vocês não sejam julgados.” (NVI)

[20] Ex Machina: “Atire o seu pão sobre as águas [Ou Dê com generosidade o seu pão], e depois de muitos dias você tornará a encontrá-lo.” (NVI)

[21] Ex Machina: ‘’Mas você, quando ajudar alguma pessoa necessitada, faça isso de tal modo que nem mesmo o seu amigo mais íntimo fique sabendo do que você fez.” (NTLH)

[22] Ex Machina: “Assim nós temos essa grande multidão de testemunhas ao nosso redor. [...]” (NTLH)

[23] Essa foi a última! Viu só?

Vem comigo até Pequim?